Flor de um dia

Porque algumas plantas soltam suas flores, por algumas horas apenas?

A duração das floradas e a resistência de suas pétalas sempre foi assunto de atenção por parte dos floristas e dos jardineiros. Quem é que não quer que uma flor dure semanas, depois de cortada ou mesmo luzindo suas cores na planta que lhe dá sustentação? Lembro que, ainda menino, ia ao mercado das flores para apreender técnicas e macetes que “esticavam” a vida e a beleza delas. Questões como luz excessiva, calor e baixa umidade ambiente eram fatais e as câmaras frigoríficas e a tênue iluminação ajudavam o trabalho dos produtores que cotizavam suas rosas, cravos, gladíolos e muitas outras, dependendo do frescor que suas corolas apresentassem. As mais novas eram destinadas para os arranjos caros e as já quase desbotadas eram aproveitas nas coroas fúnebres, cuja durabilidade, obviamente, não era necessária.

Nos canteiros vivazes à preferencia, talvez pela praticidade, era por aquelas plantinhas que dessem bastantes flores e que durassem muito. Entretanto sempre questionei essa coisa prática no jardim. O jardim é pensado como algo poético e não como um espaço de utilidade fácil e de mecanismo simples.

E nesse universo bucólico, onde não existem compromissos com modismos ou tendências, vamos descobrir que as flores mais deslumbrantes duram apenas um dia. Ou uma noite, talvez. Isso ocorre, geralmente, em regiões onde o sol calcinante desidrata rapidamente as pétalas malogrando seu viço, fator essencial para atrair os polinizadores. Estes são orientados sempre pela cor e o brilho cintilante dessas peças florais que envolvem os estames.

Nos desertos da Baixa Califórnia, no México, de Atacama, no Chile ou nas regiões andinas do Norte argentino a vegetação preponderante é de cactos que armazenam água protegendo-se assim das secas e do sol forte. O saguaro (Carnegiea gigantea), por exemplo, é um cacto do deserto de Sonora, no Arizona, que pode alcançar 15 metros de altura e viver mais de 200 anos. Suas flores brancas e amarelas, muito perfumadas, atraem os morcegos que se alimentam do néctar, sempre à noite quando a temperatura é mais fresca. Mais tarde, abelhas e pombas também colaboram com a polinização nas primeiras horas da manhã. Antes do meio-dia as flores murcham, secando em seguida por causa dos fortes raios solares.

O tamanho e fulgor das flores do saguaro são notáveis. Provavelmente porque ele sabe das noites escuras e dos recursos necessários, para seduzir aqueles que levaram os grãos de pólen para outra flor, garantindo uma fecundação segura que permita a permanência da espécie nessas regiões tão áridas.

Autor: Raul Cânovas

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *