Epífitas

São plantas que, fixadas nos troncos e ramos das árvores, vivem sem parasitá-las, produzindo seu próprio alimento através da fotossíntese.

Quando contemplo uma árvore tomada por essa vegetação, imagino como essas peregrinas planetárias se associaram para aprender a simples arte da convivência: o truque de viver juntas enfrentando o frio, a seca e muitas vezes a fome. Observando sempre a mesma paisagem, aprenderam a crescer fortes, descobrindo como uma era importante para a outra. Claro que, no fundo, sabiam que o convívio não lhes era indispensável, que podiam ser autônomas, sem qualquer dependêecirc;ncia que as obrigasse a suportar as dificuldades da coexistência mútua.

Epífitas em Santa Elena, Costa Rica

Mas era tão bom celebrar a vitória juntas. Renunciar ao próprio bem para aconchegar-se uma na outra e receber os orvalhos matutinos como quem recepciona a própria vida. Nessas visões percebi a capacidade que algumas têm, naturalmente, de acolher bromélias que absorvem, pelas raízes apenas, os nutrientes que escorrem com a água da chuva ao longo dos troncos, onde estão agarradas amorosamente. Em algumas árvores mais velhas, vi ripsális verdinhos, atraindo pássaros por causa de seus frutinhos, aqueles caules (artículos) que a planta forma parecem brincos enfeitando os troncos que, muitas vezes, se juntam com samambaias, como querendo estar junto à árvore, quase dobrada pelo tempo, em seus momentos esvaziados pelo vento.

Rhipsalis baccifera

Descobri que no mundo vegetal os momentos são gastos de forma diferente. Embora as plantas não consigam pensar como a gente, dispõem de todo o tempo do mundo para  exercitar o olhar e captar a beleza, a ponto de se vestirem de orquídeas e de gibasis, como se o dia fosse uma festa sem fim, onde comparecem os chifres-de-veado, as avencas ou alguma babosa-de-pau que, embarcadas nas brisas, escaparam sem arrependimento algum de um jardim inventado.
As epífitas nunca enraízam no chão, pois adoram as cascas rugosas das hospedeiras. Estas, por sua vez, também se sentem bem quando “vestidas” por elas que em circunstância alguma se aproveitam da árvore para lhe roubar qualquer coisa.

Afinal de contas, seria de muito mau gosto e falta de educação tirar alguma coisa de alguém que nos acolhe.

Tillandsia stricta

Autor: Raul Cânovas

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