Como construir um jardim sustentável - Parte III

18. Considerar arbustos espinhentos. Eles favorecem a construção de ninhos dos pássaros insetívoros


Ninho de pássaro em arbusto espinhento

As aves na cidade garantem o controle de muitos dos insetos domésticos e não fazem ninhos aonde não se sintam à vontade e seguras. Plantas com espinhos isolam os predadores, resguardando os filhotes. Não descarte essas plantas que são refugio seguro para muitos gorjeios.

19. Evitar “modismos” no jardim, eles vão e vêm sem refletir as necessidades da comunidade. O verde é atemporal, não se enquadra em tempo algum.

Quando plantamos uma árvore ou uma palmeira, muitas vezes não imaginamos que elas irão viver muitos anos, geralmente mais dos que os que nos cabe viver como jardineiros neste mundo. Por isso que não há porque se preocupar com moda, ela é um fenômeno sociocultural que expressa somente um determinado momento e a paisagem, fabricada ou não, é eternizada através dos ciclos biológicos que determinam sua autenticidade. Os jardins precisam lograr independência, uma desassociação com modismos que os façam depender de movimentos que não têm nada a ver com a liberdade e autonomia que a natureza merece.

20. Fomentar colônias de minhocas, já que, além de bombear ar para dentro do solo, fornecem nutrientes de forma ininterrupta, sempre.

Elas vivem em solos frescos, úmidos e ricos em matéria orgânica em decomposição, arejando a terra e possibilitando um melhor escoamento das águas que, por causa disso, ficam menos susceptíveis aos processos erosivos, tão frequentes em solos excessivamente argilosos e compactos. No solo com maior permeabilidade e descompactado, as raízes penetram com maior facilidade.

O húmus que a minhoca produz é o melhor e mais rico esterco, levemente alcalino e neutro. A terra que a minhoca expele possui o dobro de potássio, o triplo de magnésio e o quíntuplo de nitrogênio e do fósforo da terra ingerida, além de conter uma vasta variedade de sais minerais.

21. O paisagista despreocupado com o meio ambiente transforma arte em oficio, técnica em comércio e prazer em luxúria.

O ambiente artificial ocasionado pela modificação do espaço urbano, a verticalização das edificações, a impermeabilização do solo e a redução das áreas verdes tem excedido a capacidade biológica do habitante da cidade, que procura o reequilíbrio. É atribuição do paisagista devolver a mata perdida na forma de jardins que reparem a falta de verde. Isto tem que ser feito sem descuidar a manifestação estética, plena de sensibilidade, de percepção e de evolução de ideias, levando em conta que o paisagismo é uma arte aplicada e não apenas uma expressão cultural onde o artista se manifesta sinceramente, exteriorizando suas emoções. O jardim pode ser utilizado como um instrumento para infundir ideias sãs, na doutrinação filosófica da sociedade, assim como ferramenta na educação em vários campos do conhecimento.

22. Selecionar uma porcentagem alta de árvores com raízes profundas. Estas penetram abaixo da camada superior, “trazendo” umidade para arbustos e herbáceas próximas.

Um jardim projetado com critérios de uso eficiente da água consome uma quarta parte daqueles onde a sustentabilidade é desconsiderada. Árvores com raízes profundas permitem chegar com mais facilidade ao lençol freático, o reservatório subterrâneo de água. Muitas dessas espécies vegetais, típicas do Cerrado, apresentam troncos com cascas mais grossas e folhas duras, o que evita a perda de água, permitindo uma “sobra” para aquelas que fazem parte da colônia vegetal. Há casos de espécies com raízes que se distanciam mais de 30 metros do tronco, em busca de umidade e nutrientes.

23. A Mãe Natureza é uma representação que trata da fertilidade, dos ciclos e do cultivo. É equilibrada. Portanto, o jardim deve espelhar esse conceito.


A Mãe Natureza

Gaia, a deusa grega da Terra é também um conceito filosófico relativo à natureza do planeta, constantemente agredida pela ação humana. As reações da Terra, acontecidas nos últimos anos, podem ser entendidas como uma resposta do espaço onde vivemos. É Gaia que sente e reage organicamente. Os desmatamentos na Mata Atlântica e na Floresta Amazônica e a derrubada de árvores nas cidades causam danos irreparáveis a todos os seres vivos, inclusive ao ser humano. Isto causa o aumento do efeito-estufa, o aumento exagerado de chuvas torrenciais seguidas de secas intensas e a chuva ácida. Reequilibrar de forma justa o que retiramos durante séculos é um dever para com nossa própria sobrevivência, e o reflorestamento deve começar no nosso quintal e na calçada de nossa casa.

24. Em solos pobres optar por espécies leguminosas, que fixam o nitrogênio, disponibilizando-o para outras plantas.

É importante selecionar plantas que possuam condições de fixar nitrogênio. Neste processo o gás é captado da atmosfera e convertido em compostos nitrogenados, fundamentais na nutrição de plantas. As leguminosas associam-se a bactérias fixadoras de nitrogênio, que formam nódulos em suas raízes. A Bauhinia variegata, a sibipiruna, a Clitoria fairchildiana, o jatobá, as cassias, as Calliandras, o angelim, a sucupira, a grama-amendoim e muitas outras são capazes de diminuir, e muito, os gastos com adubos nitrogenados, já que em uma área de 10.000 m² , estas plantas podem acumular 1.500 kg de nitrogênio no solo. Este elemento, quando deficiente, provoca amarelamento das folhas, crescimento retardado, deficiência proteica, etc.

25. Apreciar a paisagem como a linguagem muda da nação. Ela expressa a nossa cultura.


Nossa natureza… nossa bandeira

É sintomático viver em um país que teve seu nome inspirado em uma árvore, que leva verde na bandeira e que, possuindo a maior biodiversidade do planeta, procure palmeiras e árvores em países distantes. Este nacionalismo da paisagem que defendo corresponde à valorização da flora local e se opõe à mesmice importada desde a época do Império. Seria ideal destacar o que chamamos de “cor local”, que distingue o conjunto paisagístico de cada região do país. Libertarmos de verdade e assumir-nos como nação relevante é, por exemplo, plantar palmeira-republicana em lugar de palmeira-imperial. Ainda não foi inventada? Então precisamos incumbir um buriti ou uma açaí dessa tarefa!

26. Projetar o jardim de forma que seus atributos estéticos não prevaleçam acima dos benefícios físicos e psicológicos.

Não existe beleza sem ética. Na Grécia antiga, o belo e o bom eram associados em uma palavra só, “calagathon”. O gregos não admitiam que algo pudesse ser dotado de qualidades boas sem ser, também, favorecido pela beleza. Se formos atrás daquilo que nos traz vantagens à saúde e ao lado íntimo da nossa personalidade estaremos, seguramente, alimentando os fundamentos artísticos que perceberemos como belos, como formas de arte. Nem sempre o que nos parece belo, e até sublime, nos faz bem.

27. Pensar em renques que minimizem a ação dos ventos, diminuindo sua influencia nos processos erosivos e na evaporação de superfície.

As barreiras que enfraquecem as correntes de ar atmosféricas são mais eficientes quando formadas por grupos, mais ou menos contínuos, de espécies de diferentes portes e formatos. A densidade das copas deve ser alta, com boa espessura, concentrando numa faixa larga as árvores e os arbustos que abrandarão os ventos e a erosão eólica que ocorre quando o vento se choca contra o solo e o resseca.

28. Todo jardim, mesmo básico, deve incluir uma árvore.

Por tudo o que uma única árvore pode propiciar é importante considerar sempre, pelo menos uma no nosso jardim. Não é necessário que alcance uma grande altura ou que projete demasiada sombra, há muitas que não ultrapassam 3 ou 4 metros de altura e que, tendo as copas vazadas, permitem a entrada de luz natural. Flamboiãzinhos, manduiranas, suínas, manacá-da-serra, jasmim-manga, chapéu-de-napoleão e tantas outras, são apropriadas para o cultivo em pequenos espaços.

Continuaremos amanhã…
Autor: Raul Cânovas
 

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