Vegetação subespontânea

Temos, no nosso país, plantas nativas e exóticas, mas há as que ao longo dos anos adquiriram uma espécie de cidadania


Carmen Miranda e as bananas

As plantas subespontâneas são aquelas que, oriundas de terras distantes, se instalam em uma região ou país sem a interferência deliberada do homem. As nativas, sabemos, são aquelas que desde sempre fizeram parte de um bioma, crescendo e mantendo as características que lhes permitem colonizar grandes extensões de terreno, como o emblemático pau-brasil, a goiaba e a mandioca. As exóticas, pelo contrário, são as estrangeiras, plantas que não fazem parte de colônias vegetais indígenas, como o fícus benjamina, a uva e o bambu-mossô.


O lírio-do-brejo, tão brasileiro, porém vindo de fora

Já as subespontâneas confundem-se, muitas vezes, com as nativas por fazer parte da paisagem e dos hábitos regionais ou nacionais. As citações para estes casos são inúmeras, entretanto algumas parecem-me perfeitas para mostrar como se naturalizaram ao ponto de serem incorporadas ao caráter brasileiro. São elas: o dendezeiro (Elaeis guineensis), trazido de Angola e Senegal, nos navios negreiros; a banana, incorporada fortemente às nossas tradições pelos marinheiros portugueses que a trouxeram da África Ocidental no século 16, mas que é nativa no sul e sudeste da Asia; a jaqueira, a carambola e a mangueira, vindas da Índia; o abacateiro, do México; o arroz, originário do Japão, onde é cultivado há pelo menos 7 mil anos; o lírio-do-brejo (Hedychium coronarium), tão comum em fundos de vale e na vegetação costeira próxima dos portos, aonde chegava como lastro nos porões dos navios japoneses; a maria-sem-vergonha (Impatiens walleriana), nativa do leste da África, na região da Quênia e de Moçambique e hoje frequente na Mata Atlântica e muitas outras, que hoje adquiriram naturalmente a qualidade de cidadãs tupiniquins.


O azeite de dendê, produzido por uma palmeira africana

Como vemos, a globalização começou há bastante tempo, meio que sem consciência ou planejamento, intervindo nos processos culturais do nosso país. Isto deixou marcas, miscigenando a população e acrescentando elementos à sua cultura. Um processo absolutamente normal e frequente no resto do mundo participativo.


Nhoque italiano, feito com batata e tomate americano

Na Itália, por exemplo, a polenta feita com milho começou a ser feita depois que os espanhóis o levaram do Caribe americano em 1492. O mesmo aconteceu com o tomate (tomatl, na língua náuatle, falada pelos astecas) que aportou na península itálica mais ou menos na mesma época, e que se tornou essencial na culinária daquele país. A gastronomia húngara se enriqueceu graças aos pimentões da América Central para, moídos e secos, transformarem-se em páprica. Da mesma forma, os jardins europeus sofreram influências por causa das plantas que levaram da América: abacaxis, agaves e orquídeas causavam frisson entre ingleses, franceses e italianos.

Só espero que a “essência brasileira” nunca se perca, adotando maneirismos de fora. Que sua flora autóctone seja valorizada e prevaleça sobre tudo aquilo que importamos… muitas vezes desnecessariamente.

Autor: Raul Cânovas
 

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