Um Natal enfeitado de ilusões

Hoje é véspera de Natal. Dia de nos encontrarmos com aqueles que são especiais para trocar não só presentes mas também carinho e amor. Para celebrar a data, Raul Cânovas nos presentou com uma bela crônica de Natal. Feliz Natal, amigos!

Lá estava ele mais uma vez, no meio do jardim, cercado pelas caixas de enfeites que acumularam um fino pó, enquanto esperaram no sótão por mais um dezembro. Tinha um pouco de tudo: bolas coloridas e brilhantes, penduricalhos que pareciam feitos com cetim, adornos chineses e até fitas metalizadas que cuidadosamente enroladas resistiam ano após ano o solene ofício de decorar o pinheiro de natal, permanecendo tão bem conservadas que sempre pareciam estreantes.
Já ia pegar a escada (o pinheiro tinha crescido muito), quando ouviu uma voz aguda e penetrante que parecia surgir do nada perguntando:
– O que você fez de janeiro para cá, além de esperar pela chuva?
Uma outra voz menos estridente respondeu:
– Aguardei o dissolvimento das nuvens, porque não fiquei satisfeito apenas com o orvalho.
– Mas de que valeu essa água toda – reiterou a primeira voz – se em seguida se evaporou?
– Eu usei uma parte para hidratar minhas energias. Diz o interlocutor.
O homem um pouco assustado e bastante receoso tentava identificar a procedência da conversa, que continuava intensa entre as partes.
– Energias? Para que energias?
– Para inspirar minha robustez
– E para que serve esse vigor todo?
– Para se ter certeza de ser capaz.
– Capaz?
– É, e também corajoso, porque apesar de viver em um jardim é preciso fazer alguma coisa, algo transcendente.
– Uma espécie de magia?
– Pois é, às vezes é um pouco enfadonho isso de fabricar milhares de pitangas todos os anos.
– Você faz pitangas?
– Você não notou?
– Desculpe sempre estive muito ocupada com minha florada.
– Obrigado pelo perfume.
– Imagine, não custa nada.
– Mas ele alimenta meus devaneios
– Algum dia você consegue, algum dia, quem sabe, vou saborear a tua polpa.
– Tchau madressilva.
– Adeus pitangueira.
O homem virou na cama, e continuou sonhando com um Natal enfeitado de ilusões.
Esperou o dia seguinte para pegar a escada.

Autor: Raul Cânovas

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