São Paulo e eu

O título, à primeira vista, parece um pouco vaidoso. Mas não temam. Não há arrogância alguma, apenas quarenta anos de convivência com uma cidade que apreendi a amar e que me adotou como se fosse seu legítimo filho.

 


Avenida Paulista (vista do alto)

Em princípio pensei no Rio de Janeiro, como destino das minhas ilusões. Lá poderia trabalhar junto com Roberto Burle Marx, ir à praia, frequentar o Bar Luiz, na Rua da Assembléia, passear no Parque Lage, ou simplesmente beber um chope no antigo bar Veloso — que hoje se chama Garota de Ipanema. Entretanto escolhi São Paulo. Isto não parecia coerente, já que ninguém me convidara para trabalhar naquilo que estava pautado na minha vida e que era desenhar jardins.

Na época a cidade tinha 3,7 milhões habitantes, o MASP era inaugurado, enquanto o último bonde deixava de circular, e um ex-diretor da Associação Comercial de São Paulo, Paulo Maluf, era nomeado para a Prefeitura de São Paulo, pelo governador Abreu Sodré. Quase em seguida deu-se o início da construção do Elevado Costa e Silva, apelidado de “Minhocão”. Construído a toque de caixa, o viaduto de 3,4 quilômetros de extensão ficou pronto, praticamente, em um ano. Também o antigo Hotel Hilton iniciava seu funcionamento, ao lado do Copan, com seus jardins no 10° andar, projetados por Burle Marx e executados por mim.

Lembro que as chuvas já causavam estragos nas cidades, que cresciam ignorando que os trópicos têm dessas coisas. Rio de Janeiro (RJ) era inundado, no verão de 1971, a terra dos morros veio abaixo, deixando 53 mortos e mais de 20 mil desabrigados. Semanas depois o mesmo aconteceu em Salvador (BA) matando 130 pessoas e pondo de lado 8 mil desprotegidos. Por aqui surgem centenas de favelas que, hoje, são habitadas, em seus barracos construídos com tábuas, folhas de zinco, papelão e até mesmo partes de alvenaria, por 1 milhão de paulistanos. Ou seja, 9% dos 11.244.369 moradores da maior cidade de América do Sul vivem precariamente.

Apesar de não estarmos, como no século XVI, isolados do resto do mundo pelo Oceano Atlântico e do resto do país pela Serra de Paranapiacaba, de falar português e não tupi e dos grandes progressos urbanos, intuo que a cidade teve momentos melhores. Não estou dizendo que os poucos portugueses ao lado de índios e mamelucos que totalizavam menos de dois mil habitantes, naquela época, tivessem algum conforto na cidade. Mas, pelo que sei, nos doze anos em que Antonio da Silva Prado prefeiturou, houve um desenvolvimento urbanístico enorme: procurou modernizar, através da construção de pontes, aterrou várzeas em que as chuvas impediam a ligação entre os bairros, implantou o sistema de energia elétrica, construiu o Teatro Municipal, o Viaduto do Chá, a Pinacoteca, a Estação da Luz e a Avenida Tiradentes.

 

Antiga fotografia do Teatro Municipal de São Paulo

 

Foi sucedido por um pernambucano, Raimundo Duprat que, durante sua gestão, conheceu o famoso arquiteto francês Joseph Antoine Bouvard, de passagem por aqui, procedente de Buenos Aires, onde tinha vários projetos. Em seu parecer, ele defendeu uma série de medidas, como a preservação da memória histórica da cidade, um planejamento que aproveite o relevo acidentado da região e a ocupação entre os intervalos que separavam os vários núcleos urbanos. "Em todas essas disposições convém não esquecer a conservação e a criação de espaços livres, de centros de vegetação", afirma ele, lembrando que: “mais a população aumentará, maior será a densidade de aglomeração, mais crescerá o número de construções, mais alto subirão os edifícios, maior se imporá a urgência de espaços livres”.

Na mesma época, nosso primeiro urbanista, o engenheiro Adolfo Augusto Pinto, já afirmava que o problema mais grave a ser solucionado era o saneamento público e tinha como máxima o slogan "arborizar é sanear". Ele, que se formara pela Escola Politécnica do Rio de Janeiro, sabia que uma árvore pode fornecer oxigênio para três ou quatro pessoas. É de sua autoria o primeiro plano oficial de urbanização da cidade. O projeto, infelizmente, ficou engavetado, com exceção do Viaduto Boa Vista.

 

Projeto ambiental vai recuperar o velhor Parque Dom Pedro

 

 

Durante a intendência do Barão de Duprat (1911 a 1914), o Parque do Anhangabaú foi reurbanizado, se remodelou o Largo da Memória e implantou-se o Parque Dom Pedro II, com um projeto de Bouvard que, na época era chefe dos serviços de paisagismo e de vias públicas de Paris. Recentemente, em 2003, o paisagista Fernando Chacel fez um novo projeto ampliando de 70.000 m ² para uma área total de 234.045 m ², tendo o Parque Dom Pedro II como centro e anexando paisagisticamente espaços contíguos para uma melhor e maior integração espacial. Lamentavelmente o projeto ainda não saiu do papel. Em outubro último, moradores e comerciantes da região entregaram à Prefeitura e à Polícia Militar uma lista com doze reivindicações nas áreas de urbanismo e segurança. A resposta da prefeitura foi uma promessa de atender às reivindicações, enquanto a polícia propôs a instalação de uma base comunitária móvel no parque.

Continuo apaixonado por São Paulo, mas é dificil conviver com 7 milhões de carros. Por que não construir ciclovias como em Bogotá? Cobrar pedágio como em Seul, que reduziu em 34% o trânsito no centro? Arborizar os 17 mil quilômetros de ruas e avenidas com espécies adequadas à poluição? É falta de verba pública? Não!!!

A capital paulista é a 10ª mais rica mundo e pode ser comparada a de um país. Se fosse uma nação, seria a 47ª maior economia do mundo, à frente de países como o Egito e o Kuwait. Na América Latina, seria a quinta maior economia, empatada com o Chile e com PIB cinco vezes superior ao do Uruguai. Atualmente conta com um orçamento anual de R$ 15 bilhões e arrecadação de mais de R$ 90 bilhões.

 

Feliz aniversário, São Paulo… eu te amo!

Autor: Raul Cânovas

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