Outono


Villa Medici, Poggio a Caiano Vertumnus & Pomona detail Jacopo da Pontormo [1494-1557]. Foto:  Petrus Agricola.
 

Na Etruria, quinze séculos a. C. vivia um rei que fora batizado com o nome de Vertuno. Vertuno, ou Vertumno, como alguns preferem chamá-lo, significa voltar e também mudar. O reinado deste homem foi caracterizado pela dedicação, até poderíamos dizer pelo amor que dedicava aos jardins que desenhava. Esses espaços verdejantes não eram cultivos de verduras, legumes ou cereais, eram jardins dedicados ao prazer, ao puro prazer de alimentar os sentimentos com a bucólica frugalidade da paisagem recriada.

Esse rei, convertido mais tarde em divindade pelos romanos, tinha o poder da metamorfose e foi exatamente por causa dessa virtude que conquistou Pomona. Ela era uma ninfa lindíssima, tão bela que todos os deuses dos campos tentavam se candidatar a namorados fiéis. Entretanto, preferiu Vertuno, por causa de seu charme irresistível que consistia em mudar permanentemente. Quando parecia que iria envelhecer, remoçava repentinamente com todo o frescor juvenil. Tinha, segundo o historiador Ovídio, o poder de mudar o curso dos rios e de transformar, magicamente, flores em frutos.

Pomona que velava pela boa maturação dos frutos de todas as árvores, ficava fascinada com a força que ele possuía e percebia que  juntos podiam somar forças nessa empreitada em prol da natureza. Contam que a partir do momento em que juntaram seus poderes divinos, os jardins da Etruria ganharam energias coloridas e perfumadas.

Para honrá-lo, os romanos, durante o Império, levantaram um templo perto do mercado das frutas e o consagraram como a personificação do outono. No Museu Arqueológico de Barcelona, há uma estatua dele, em pedra, datada do século II a. C. onde é representado segurando um balaio com frutas. Outra escultura, esta em bronze, o mostra com um cacho de uvas na mão direita e um livro na esquerda, talvez significando a farta safra nos meses de calor e um imediato recolhimento para um mundo mais introspectivo e menos prático, no outono.

Autor: Raul Cânovas

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