O jardim sagrado


Foto: Ahp Ibanez.

Em um lugar misterioso da terceira dimensão existe um enigmático jardim. Ele é a soma de todos os jardins, a história da paisagem recriada em um único espaço. Nele trabalham os iniciados de todas as eras e de todas as regiões, mulheres e homens que desvendaram todos os segredos que os deuses escondiam.

Esses mestres jardineiros – me atrevo a chamá-los desse modo, com a intenção apenas de dar-lhes um nome – carregavam atavicamente o valor cultural da terra que tinham habitado. Iori que podemos traduzir como “flor adorada” falava o Hana-Kotoba a linguagem japonesa das flores. Ele era o encarregado dos canteiros, onde, às vezes alegres, às vezes melancólicas, ervas miudinhas fabricavam pétalas perfeitas. Iori as impregnava de poesia como se escrevesse sonetos que brotavam do fundo de seu peito.

O que regia as árvores possuía um currículo, que revelava trabalhos divinos pelos bosques do mundo. Ter servido a deusa Asherah, no Sinai, lhe ensinou o conceito da abundância. Com o Caipora guarani aprendeu a defender as florestas que Iná Maka, a Mãe Terra paria. As lágrimas que a dor da maternidade produzia eram transformadas em orvalho, por Iná Maka, desse modo o salgado se convertia em doce para alimentar todas as árvores do mundo. O regente das árvores, que cresciam naquele recôndito jardim, passava horas, nos últimos tempos, tentando inventar uma máquina que controlasse os ventos. Enquanto isso, em vários momentos, se perguntava se existia uma hierarquia entre elas. Se era seu dever ordená-las por categorias, privilegiando as maiores e mais robustas ou separando as que captavam o brilho dos astros daquelas tímidas que vegetavam escondidas. Ficava apreensivo com a possibilidade de errar e gerar uma crise entre elas. Sabia que no Jardim Sagrado não haveria espaço para conflitos desse tipo. Ttalvez por esse motivo, toda vez que uma arvorezinha brotava, rezava este mantra: “você é hoje uma muda, uma pequena muda, muda; no entanto terás muito a dizer algum dia”.

A própria Jurema governava as plantas mágicas, que tinham o poder de curar todos os males. Por isso, naquele lugar não existiam aflições nem doenças. As valerianas de flores violáceas acalmavam. As prateadas artemísias, consagradas a João Batista, protegiam dos maus espíritos e o Iris florescia inspirado pelo arco-da-chuva, impedindo as discórdias. A sagrada Jurema refletia: ”no meu jardim sempre tem coisas acontecendo”.

Os mestres jardineiros eram algo assim como uma conseqüência histórica, de todo um passado intensamente vivido. Criavam um horto paradisíaco onde se desenhavam caminhos, para serem transitados sem esforço por aqueles que aprenderam a andar. Lá estão todas as árvores esquecidas. Um único perfume sintetiza cada uma das fragrâncias que a natureza fabricara.

Quem sabe possa sentir algo edênico dentro de você, no seu âmago onde a essência habita. Assim, mesmo sem poder vê-lo, o Jardim Sagrado poderá inspirá-lo e protegê-lo.

Autor: Raul Cânovas

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