Jardins Orientais

“O rio atinge seus objetivos porque aprendeu a contornar obstáculos” Lao Tsé

 

Jardim Japonês do Bosque/Zoo “Dr. Fábio Barreto”, em Ribeirão Preto

Uma das grandes diferenças entre o paisagismo desenvolvido na Ásia e aquele que cresceu no Ocidente é o caráter místico e religioso que está presente nos chineses, nos japoneses e nos coreanos. Esses povos tiveram, desde os primórdios da civilização, uma preocupação muito forte de manter uma ligação com a natureza; Lao Tse, por exemplo, ilustrava com frequência suas metáforas com exemplos tirados da paisagem. Em uma de suas citações, ele diz que a gente deve deslizar na vida como se estivesse em um rio, ou seja, de uma maneira mansa e até despreocupada. Recentemente Barry Stevens (1902 – 1985), psicóloga e escritora que desenvolveu sua própria forma de Gestalt-Terapia (um trabalho corporal, com base no conhecimento dos processos do corpo, trabalhando com personalidades como Carl Rogers, Bertrand Russell e Aldous Huxley) escreveu um best seller, que titulou “Não Apresse o Rio”, transformando-se em uma espécie de bíblia da Gestalt terapia, seguramente com muitos dos princípios de Lao Tse, do Zen-budismo e da filosofia de Krishnamurti.

Confúcio, que foi contemporâneo de Lao Tse, também ensinava o caminho para alcançar a liberdade e a calma espiritual através da contemplação.

Quando mais tarde os seguidores de Buda semearam os ensinamentos do mestre por toda China, já encontraram um campo fértil, porque o povo estava consciente de seu misticismo e amava a natureza.

Mas existem outras diferenças entre a arquitetura paisagística do Oriente e os jardins de outros continentes; enquanto estes procuram a beleza usando a simetria, as uniformidades e as proporções muitas vezes até rígidas demais, os orientais exploram essa capacidade inata de romper formas e surpreender a cada passo com novas perspectivas causando assim no observador uma sucessão de percepções na medida que passeia pelo jardim.

Antigamente era muito comum entre os chineses visitar periodicamente lugares remotos, geralmente montanhosos e com uma paisagem que devia ser sempre grandiosa e bucólica; eles iam para estas regiões, por uma série de motivos: para fugir do cotidiano, para descansar, mas fundamentalmente para meditar e se dedicar às coisas da alma, como escrever poemas e fazer sacrifícios que ofereciam aos deuses e antepassados.

O problema era chegar ao destino: eles enfrentavam longas e torturantes caminhadas, especialmente para as mulheres, que na época usavam calçados apertados para não permitir o crescimento normal dos pés.

Foi então que eles começaram a reproduzir essa paisagem, perto das casas onde moravam, para sentir a mesma emoção que sentiam quando viajavam para aqueles campos remotos. Dessa maneira surgiram os primeiros jardins orientais.

Pessoalmente me sinto muito ligado a todas as coisas que vêm do Japão; desde minha infância mantenho uma relação muito forte com produtores de plantas que nasceram lá ou que são herdeiros desta arte, por causa dos pais ou dos avôs.

Eu arriscaria dizer que os chineses ficaram um pouco para traz no desenvolvimento da cultura paisagística; desde o momento em que o budismo entrou no Japão, houve uma proposta por parte dos nipônicos de ir longe a tudo o que fosse inerente a natureza cultivada. E a partir do século VI até o século XV, houve uma evolução fantástica envolvendo uma tradição, hoje tão admirada.

A própria cerimônia do chá, começou a adquirir hábito só no século XIV e no século XV, ajudando muito a arquitetura paisagística, porque as casas de chá sempre estavam muito bem rodeadas de jardins cuidadosamente projetados.

Inclusive a arte do arranjo floral, o Ikebana, começou há 13 séculos e se destinava a simbolizar certos conceitos filosóficos do Budismo. Porém no decorrer do tempo, o lado religioso acabou desaparecendo enfatizando-se especialmente o lado mais naturalista do Ikebana.

Arranjo Ikebana

Nessa época algumas flores eram muito valorizadas como ameixeira, a glicínia e o crisântemo, mas nunca deixavam de lado as árvores e arbustos que davam à paisagem um efeito permanente, como era o caso do Acer e da Azaléia, que eram tratados com podas de maneira a criar formas originais. Tanto se dedicaram a esta tarefa de interferir no livre crescimento das árvores inventando o bonsai, que ajustou perfeitamente a necessidade de ter a paisagem cada vez mais perto dos olhos e mais próximos da alma dos japoneses.

Autor: Raul Cânovas

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