Aniversariar?

Germinei há muito tempo, como uma árvore qualquer…


 

Por isso não celebro hoje meu aniversário e, sim, o momento em que brotei para a vida aparecendo neste mundo. Nos primeiros anos, fui cuidado sob a proteção dos mais velhos e experientes. Alegre, ganhava tamanho e forças para ser eu mesmo, apesar de cedo notar que era tutorado, para não me dobrar e podado, para ser bem-educado e civilizado.

Nessa infância, pensei que poderia ser forte e resistente e também firme nas minhas convicções, mas observei mais tarde que os obstinados cresciam de modo pouco flexível cedendo feio frente às tormentas e os tormentos. Então optei por ser um pouco mais complacente, copiando os bambus que se dobravam com o vento, sem se quebrar para em seguida erguer-se, demonstrando a clara rebeldia dos que não obedecem, mas sabem esquivar o mau tempo. Demorei bastante em entender o que acontecia em volta de mim, aliás, ainda não sei o porquê de muitas coisas, igual às árvores que não sabem contar suas folhas, nem o tamanho de suas raízes. Tampouco aprendi numerar minhas manhas nem as poucas façanhas que ainda permitem meu existir.

Sou rebelde, não obstante os cortes que me obrigaram a ser bem comportado. Inspirei-me em uma amiga. Grande amiga por sinal, que desobedecia a calendários, florindo nas madrugadas de agosto de pura birra e teimosia para abrigar pássaros friorentos, mesmo sabendo que suas pétalas iriam tiritar de frio. Ela ensinou-me que toda insurreição aproxima o romantismo subjetivo dos que fogem das realidades convictas para estrear imaginações e inventar fantasias. A vi produzindo mutações deserdadas de sua genética, apenas para inovar nuances de amarelos que brilhassem mais do que o sol. Não importava acertar no objetivo, nem ganhar novas borboletas deslumbradas, o fazia com a intuitiva paixão daquela que queria ser diferente das outras árvores. Sabia que suas flores não luziriam mais do que o sol, no entanto interagia com a natureza usando o lirismo como força criativa, sem se importar com o mundo social e polido, mas atenta à sua seiva que alimentava seu espaço íntimo.

Aprendi e continuo aprendendo com ela e, apesar de termos parado de crescer por fora, continuamos inchando nossos cernes com a desequilibrada arte de viver intensamente.

Autor: Raul Cânovas

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