Vender jardins

 Parece fácil, entretanto nem sempre conseguimos entender as fantasias do nosso cliente

Marc Chagall, "Solidão"

De que forma você começa um diálogo com seu cliente? Imagino que no primeiro encontro com ele, derrame todo seu charme e conhecimentos para convencê-lo que a melhor opção seja você mesmo. Não é verdade? Sim, claro, todos nós procuramos entusiasmar o possível contratante evidenciando nossas virtudes. Mas, e os desejos dele? Será que no afã de impor nossas convicções, nos esquecemos das que ele possui?

Creio que o melhor truque para favorecer uma relação de confiança entre você e esse cliente é ouvi-lo. E ouvi-lo desprovido de suas certezas adquiridas ao longo da vida profissional. Aliás, profissional e humana, porque nossos conceitos são permanentemente estimulados pelo nosso contorno que, obviamente, não tem nada a ver com o contorno dessa pessoa que está na nossa frente. É evidente que fomos chamados para assessorar e colocar em prática nossas habilidades e nossa experiência como paisagistas, porém é sempre bom lembrar que o espaço verde a ser produzido não será nosso, apesar da assinatura ou da grife. É ele que deverá contemplá-lo e sentir prazer com isto. Portanto, um pouco de modéstia nessa hora pode estimular uma empatia entre ambos.

Aprender a ouvir

Acho que devemos comparecer livres de ideias quando, pela primeira vez, entrevistamos alguém que quer fazer um jardim. Em lugar de expressar opiniões, que tal escutar primeiro o que ele tem a dizer? Talvez, nessa hora, seja melhor deixar que nosso interlocutor manifeste suas vontades, seus desejos mais íntimos, suas fobias, quem sabe? Cabendo a nós estender um tapete de intimidade por onde ele possa andar verbalizando suas emoções, animando-o para que esclareça o que sonha. Seguramente, nossas respostas de reflexão permitirão que o projeto se concretize de modo ameno e agradável. Poderíamos, inclusive, andar junto com ele, sentindo de algum modo o que ele sente. Não se trata de colocar-nos no lugar dele, já que isto é impossível, porque o lugar dele é intransferível. Ninguém pode sentir o que o outro sente, sem embargo podemos caminhar de forma a ver as coisas desde ângulos parecidos e assim compreender melhor os anseios dessa pessoa que quer materializar um sonho.

O paisagista bem intencionado será reconhecido por captar, com sensibilidade e bom tino, aquilo que está guardado no fundo de cada pessoa que se aproxime dele profissionalmente. É evidente que sem renunciar a seu estilo.

Lembre que o paisagista pratica uma arte para ser utilizada, não é a figura central que manifesta suas emoções despreocupado em atender as expectativas dos outros, como um artista plástico, um músico ou um poeta. Estes, quando verdadeiramente autênticos, manifestam seus sentimentos através de uma obra pessoal e descomprometida com os aplausos da crítica. Já quem pratica uma arte aplicada, como a de inventar paisagens, precisa estar sintonizado com o outro, agindo e trabalhando de forma coletiva.

Autor: Raul Cânovas

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