O sol que apaga todas as sombras

 Creio que existam muitos Sois, o meu é o Sol dos jardineiros

E o seu?

Os astrônomos dizem que ele é o centro do nosso sistema, os biólogos, que é o responsável pela vida no nosso planeta, e os químicos descobriram que ele mantém a água em estado líquido. Mas os poetas, talvez por pura ignorância cientifica, usam seus raios apenas para desfazer a escuridão. Lembro que Pablo Picasso diz certa vez que: “Há pessoas que transformam o sol numa simples mancha amarela, mas há aquelas que fazem de uma simples mancha amarela o próprio sol.” Essa frase me faz pensar que não são só as pessoas que fazem dele o próprio Sol, as margaridas copiaram seu jeito há muito tempo e brincam com ele todas as manhãs, bem cedinho, enquanto você e eu dormimos.

Há também um astro-rei dos indígenas Caiapós, que acreditam que era um índio valente deslumbrado com a Lua, tentando em vão alcançá-la. Acabou por desistir e passou a persegui-los por toda a Amazônia com seu calor escaldante. Mas, para bem de todos, ele está ai, assomando-se no crepúsculo e ficando entre nós até o entardecer. Faz isto sem pedir nada em troca, todos os dias, nos cinco continentes e nós, ingratos humanos, esquecemos o trabalho que ele se dá para apagar todas as sombras, perseguindo miasmas com seus raios salutares que higienizam.

Acho que é importante retribuir os favores recebidos, isto quando alguém nos ajuda ou simplesmente se preocupa com a gente. Quando acontece algo assim falamos obrigado ou sorrimos, gratificando o outro. Também descobrimos que favorecer é uma necessidade inerente aos que vivem em comunidade, ou seja, todos nós, porque não lembro de ninguém que tenha vivido longe de tudo e de todos, a não ser Robinson Crusoé, claro, e mesmo assim um personagem fictício, inventado por um romancista há quase trezentos anos. É tão bom possuir o dom de ajudar, o dote inato de todo ser humano de promover o bem de quem queremos e nos complementa. Estou convencido de que você e eu carregamos uma munição preciosa que se chama amizade e que, sem querer ou sem saber, saímos por ai atirando afetos permanentemente, porque não podemos deixar que essa arma espiritual enferruje o gatilho de suas emoções.

Porque estou dizendo tudo isto? Porque há muito esquecemos de agradecer o Sol, não da forma mística como fazia o faraó Akhenaton, ou adorando o deus Hélio, filho dos titãs na mitologia romana. Penso que o modo por demais intelectualizado de ver as coisas nos afastam da simplicidade de perceber algo tão simples, e ao mesmo tempo essencial, como essa luz de todos os amanheceres, apesar de algumas nuvens e tormentas.

Se você é jardineiro, apenas sorria para ele. Se não é, não importa, sorria mesmo assim!

Autor: Raul Cânovas

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