Flores no mar

Viviam em um rochedo no Mar da Arábia. Ele se chamava Muntasir, que poderíamos traduzir como vitorioso. Ela era Azhar, flores na língua árabe

Únicos habitantes do lugar, o casal de flamingos vivia isolado de tudo e de todos. Misteriosamente os ovos que os originaram eclodiram por acaso e eles estavam aí, longe da ilha de Socotra, onde outros pássaros e muitas plantas raras viviam. Azhar e Muntasir, apareceram de repente como se fossem estimulados pela lenda da ave fênix que, segundo contam, renascia em algum lugar das próprias cinzas. Formavam um par lindo, ele com quase 1,80m de altura e ela um palmo menor; tinham plumagem rosa-esbranquiçada, sendo mais escura nas penas que cobriam as asas, contrastando com outras pretas que apareciam quando voavam; os pés, as pernas e o bico de um avermelhado claro com a pontinha deste último também preta, criavam uma harmonia incrível.

Flamingo-rosado (Phoenicopterus roseus)

Mas nem tudo era felicidade. Esse penhasco era árido demais e, embora não faltassem algas, camarões e pequenos moluscos, para a alimentação deles, nada crescia nessas rochas escarpadas e Azhar precisava nutrir também sua alma com flores. Afinal de contas não era fácil para ela carregar um nome desses e não poder contemplar o colorido das pétalas de uma planta qualquer. Com habilidade tipicamente feminina, pediu a Muntasir que trouxesse sementes para serem plantadas entre as pedras da ilhota. E lá se foi ele, voando baixo em direção de Socotra, em busca de flores. O lugar era mágico e todos os sentidos do flamingo ficaram atentos à tanta novidade. Sentia o perfume de incensos que as madeiras de olíbano queimavam. O vento seco era forte dificultando o voo que, não obstante isto, lhe permitia observar desde o alto uma vegetação que poderíamos chamar de insólita.

Dragoeiro (Dracaena cinnabari)

Essa ilha, que é a maior do arquipélago, possui uma flora peculiar, não encontrada em nenhum outro lugar do planeta. A árvore do sangue do dragão (Dracaena cinnabari), com a estranha aparência de um enorme guarda-chuva e cuja seiva é vermelha; uma planta suculenta (Dorstenia gigas) que parece um baobá em miniatura; a árvore do pepino (Dendrosicyos socotranus) da mesma família que a abóbora e o melão, mas com três metros de altura; uma romã pré-histórica de frutos cor de rosa (Punica protopunica); o Aloe perryi de folhas acinzentadas com espinhos rosados e flores purpúreas e até minúsculas plantas carnívoras, junto a muitas outras que somam quase um milhar de espécies, sendo um terço exclusivas de Socotra, deslumbram qualquer um.

Dorstenia gigas

Bem, qualquer um não! Por lá passaram o rei Gilgamesh, que era filho de um fantasma há 4.500 anos; Sinbad, o marujo, d’As Mil e uma Noites; a célebre rainha de Sabá; o explorador veneziano Marco Polo; Zheng He, com sua frota de 63 navios e 27.000 tripulantes, um século antes das viagens de Colombo. E Alexandre, o Grande que, convencido por Aristóteles, invade a ilha à procura de incenso, mirra, especiarias, extrato medicinal de aloe e o sangue-do-dragão, a seiva rubra da dracena, usada tanto na medicina como corante.

Árvore-do-pepino (Dendrosicyos socotranus)

Como você pode imaginar, Muntasir não teve dificuldades de achar as sementes necessárias, para levar para Azhar. Ela as lançou nas fendas do rochedo e, em pouco tempo, os penhascos escarpados se vestiram com cores que dividiam o azul do mar do azul do céu. Um jardim no meio do oceano fez a felicidade do casal de flamingos que, segundo contam os pássaros que os visitavam, viveram eternamente, graças à misteriosa substância que o néctar de uma flor emanava.

Autor: Raul Cânovas

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