A sutil mensagem dos pajurás

Texto extraído do livro “O jardim como remédio” autoria do paisagista Raul Cânovas.

Certa vez, em uma pequena aldeia plantada à beira do rio Tapauá, o xamã, que era o homem escolhido pelos índios terenas para salvá-los de todas as doenças e malefícios, acordou mais tarde do que era seu hábito. Normalmente, antes da Lua cruzar com o Sol, ele saía de sua taba com os apetrechos de rezar e caminhava vagarosamente por uma trilha até alcançar uma clareira que ficava a uma légua e pouco do ponto de partida. Mas esse dia começou diferente. Os espíritos da noite que habitavam em seus sonhos demoraram em ceder lugar para o mundo que só se enxerga de olhos abertos. Uaican acordou com um traço de luz que corria por um de seus braços desde o ombro até a mão. Por um momento pensou que, ao levantar, o raio de Sol ficaria grudado a esse lado de seu corpo, mas isso não ocorreu. Apenas permaneceu um delicado calor que deixava um formigamento suave, como se fosse uma energia criada por um de seus ungüentos.

Partiu com o mesmo destino de todas as alvoradas, mas a trilha tinha o brilho do dia, já amanhecido, e o bom curandeiro ficava surpreso com as cores maduras do dia que entrava. Andou aquela distância de forma diferente, o tempo também era outro, ninguém sabe se andava muito depressa. Entretanto, em alguns minutos já tinha alcançado o local propício para suas falas com o sagrado. A mata de repente abria-se e mostrava uma relva clara e orvalhada na qual cresciam três pajurás com mais de 80 palmos. Uaican sentou-se e calmamente arrumou os objetos de reza: o chifre que produzia sons, o manto de tear, os colares que devia vestir com a capa e uma série de outros elementos que eram necessários na comunicação com o mundo invisível. Pela primeira vez, o xamã contemplava as copas desses pajurás, banhadas pelo brilho da manhã ainda jovem, mas já com bastante fulgor, e os galhos revelavam como nunca algo diferente. Eles estavam crescendo para cima, sim, mas também para dentro como abraçando algo. A Lua ainda brilhando no despertar da manhã parecia um prato de cerâmica branca quebrada por trás da galharia das árvores. Uaican interpretou isso como um prenúncio, entendia que algo iria se fragmentar ou enfraquecer. Voltou para aldeia e assim que chegou soube que uma criança tinha nascido. Quando se deparou com o bebê, logo depois de passar os óleos de proteção, descobriu que o menino trazia estampado nas palmas das mãos um pequeno sinal com o desenho dos frutos doces dos pajurás da mata. Uaican não teve dúvidas. O menino seria o seu sucessor, o novo pajé da tribo. As árvores, mais uma vez, o avisaram, restava-lhe apenas preparar seu sucessor, o herdeiro na magia de entender a linguagem das árvores.

 

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