Solidão

Será que uma árvore pode sentir-se sozinha?

Não falo da solitude voluntária, do isolamento que ela, espontaneamente, escolheu para refletir sobre a vida e suas vicissitudes. Refiro-me ao extravagante desamparo que sente por crescer isolada de qualquer companhia, empurrada por um destino estranho que a separou das outras. Penso que, igualmente às pessoas, é marcada por uma fatalidade que determinou um rumo diferente daquelas que, amparadas umas com as outras, crescem na mata meio que despreocupadamente. Essa árvore que vi dias atrás mostrava um estado de separação profunda e, seu tronco atarracado e rugoso, evidenciava a dor da depressão e do abandono. Ansiosa por desempenhar um papel ético com a natureza, floria compulsivamente no afã de deixar, através de suas sementes, descendentes mais felizes e com melhor sorte. Lembrava pessoas com baixa estima à procura de resultados que as conectassem com o mundo, mas que estão fora de qualquer aproximação real e afortunada.

Estranhamente, como tenho percebido em algumas mulheres e alguns homens, exibia uma aparência artificiosa, simulando uma ilusória felicidade, quando esbanjava suas flores. Lembrava-me das pessoas que desfilavam sua solidão nos shoppings e nas baladas, fingindo um “savoir vivre” enfeitado por grifes e adereços. Sua solidão não era perceptível e por momentos parecia arrogância e distanciamento, fundamentado em algo que podia se julgar como o elitismo de uma minoria vegetal aristocrática. Um falso nariz empinado que escondia a imensa frustração de não saber comunicar se com as outras árvores que, independente de suas raízes aristocráticas, viviam felizes trocando orvalhos energéticos.

Quanta sensação de vazio ela demonstrava! Quanta insegurança fabricava com suas folhas verdejantes e atrativas, que atraiam a praga da inveja, em lugar da tão desejada companhia que lhe desse complacência. Que importância tinha pertencer a uma família que agrupava um conjunto enorme de indivíduos, mais ou menos ilustres, se estava vivendo de modo eremítico, em plena floresta? De que valia sua tradição familiar se não conseguia estar perto de ninguém.(?) Se tinha sido excluída de um agrupamento que, para bem ou para mal, lhe possibilitava ser ela mesma, sem o horrível silencio que era obrigada a vivenciar.

A floresta e seus membros exemplificam uma forma certa ou errada de viver. Um modo de sermos autênticos e cativar, apenas, o que temos capacidade de seduzir, com a nossa simpatia natural.

Árvores sempre foram e serão minhas mestras…para bem ou para mal.

Autor: Raul Cânovas

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