Queda de árvores

Nestas semanas de chuvas violentas, com precipitações acima de 50 mm, a arborização urbana padece

Já escrevi sobre o impacto das chuvas nas árvores plantadas em calçadas e avenidas. Em uma crônica do dia 29 de dezembro de 2010, titulada “Por que as árvores caem”, neste mesmo blog, falei dos motivos e das soluções que fariam com que as alamedas fossem um belo oferecimento da Mãe Natureza e não um transtorno para aqueles que moram nas cidades brasileiras. Não vou abordar o tema novamente, pelo menos esta minha análise não repetirá o que já foi dito por mim naquela ocasião. Quero abordar outro aspecto. As fortes rajadas de vento que transformam ventanias em tempestades com uma velocidade de mais de 90 quilômetros por hora, derrubam galhos e arrancam essas árvores causando um sem fim de transtornos, não só materiais mas muitas vezes acidentes com as próprias pessoas.

O que me surpreende é a queda de imensas tipuanas, ipês, e especialmente eucaliptos que, rígidos de mais, não conseguem “negociar” com esses vendavais de modo a não serem derrubados. Penso que a flexibilidade, nesses momentos, é mais louvável do que o orgulho inquebrantável das árvores mais altaneiras. São elas, as enormes massas de madeira e folhas que tombam deixando a nudez de suas raízes expostas, colocando à mostra o aspecto mais íntimo de suas existências. É possível que uma certa soberba as tenha aniquilado. Vi um bambu mais verdejante do que nunca desfrutando da mesma tormenta que fora tormento para tantas árvores. Dócil e complacente com as coisas da vida, enfrentara o aguaceiro curvando-se de forma a poder observar com atenção tudo o que estava acontecendo e, ainda por cima, alimentando-se com a descarga de nitrogênio que os trovões lhe enviaram, sim, essas descargas elétricas fertilizavam o solo onde ele crescia tornando as folhas dele profundamente verdes.

Vejo isto como uma lição de vida. Fico espantado com a pouca maleabilidade de algumas pessoas que insistem, de maneira por demais conservadora, a manter uma mesma posição durante toda uma vida. É claro que devemos ser moderados com a possibilidade de uma mudança, tanto de ordem filosófica como material. Trocar de emprego, repensar nossas convicções políticas e religiosas, entrar na faculdade certa que nos brinde a carreira que sonhamos exercer, mesmo depois de ter tentado uma outra escola superior onde não encontramos o que realmente buscávamos, é algo a ser considerado com seriedade. Mas sempre abertos às metamorfoses que transformem – para melhor – nossa existência.

Prefiro admirar o singelo bambu a árvore intransigente que não soube lidar com os rigores da vida.

Autor: Raul Cânovas

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