Os 'jardineiros' do Nordeste

 

Aldemir Martins (08/11/1922 - 06/02/2006)

Aldemir Martins (08/11/1922 – 06/02/2006)


 “Unidas… Ai quem pudera numa eterna primavera,
Viver, qual vive esta flor.
Juntas as rodas da vida, na rama verde e florida,
Na verde rama do amor.”
(Castro Alves)

Se chamava Severino, apareceu meio que de repente, sem avisar. Não estava atendendo um anuncio de vaga a ser preenchida, nem mesmo sabia se haveria alguma vacância à qual pudesse candidatar-se. A questão é que estava aí, parado na minha frente, dizendo que queria ser jardineiro.

— Fez antes, algum serviço de jardinagem? — perguntei.

— Fiz não, senhor —, respondeu, com um jeito de olhar de quem juntou coragem, mas percebeu na hora que não era o suficiente para me convencer.

Acabara de assistir o filme Dona Flor e Seus Dois Maridos e seu sotaque me lembrou o de Mirandão, o amigo do Vadinho, que interpretara Nelson Xavier. Baiano? Cearense senhor, de Juazeiro do Norte; puxa da terra do José Wilker, eu disse, ainda me lembrando do filme e do papel de Vadinho que ele fizera. Sei não senhor, sei que por lá andou o “Padim Cíço”, que me ensinou a rezar: “Ó santa virgem Maria quando vem rompendo a aurora iluminai-me na hora que vem clareando o dia”. E é com fé, com essa fé aprendida, que lhe peço a oportunidade de lhe servir.

Persuadido, mais pela determinação que pelas qualificações, Severino começou, nesse finalzinho de 1976, ajudando a minha equipe de jardineiros. Nessa época a maioria vinha do Nordeste e, apesar de: sergipanos, alagoanos, maranhenses, pernambucanos, piauienses, paraibanos, potiguares ou cearenses, eram todos chamado de baianos, inclusive, claro, os próprios conterrâneos de Rui Barbosa, Irmã Dulce e Glauber Rocha. Por aqui, em São Paulo, do Rio de Janeiro para cima era tudo a mesma coisa. Parecia como se falasse de outro Brasil, de brasílicos exóticos que pouco tinham a ver com o mundanismo paulistano que, já na época, procurava globalizar-se com tudo o que era considerado bacana e contemporâneo. Sentia que esses migrantes tinham uma dificuldade enorme de integrar-se com a cidade grande. Eram humildes e seus hábitos regionais chocavam-se com um cotidiano agitado e por vezes carregado de cruéis e infundadas opiniões. Severino continuava a trabalhar, apenas clareava o dia, como que obedecendo ao Padre Cícero. Demorei em inteirar-me que estudava à noite, ele era de pouco falar, reservado, ninguém sabia da vida dele, e ele a essa altura, já deixara de ser o melhor no rastelo, para liderar a turma que implantava meus projetos paisagísticos.

Os anos foram passando, o processo de abertura política levou Sarney a Presidência da República, em 1985, no mesmo ano em que a paraibana Elba Ramalho canta “Fogo na Mistura”:
 

“Dançando, todo mundo a mil
Brasil ‘massa real’
Afoxés e frevos
Marcha e samba enredo
Brancos, índios, negros
Euforia nacional
Cantando junto em qualquer tom
Saindo num cordão geral”

 

Fiquei feliz e ao mesmo tempo um pouco murcho, entristecido, porque Severino decide seguir outros rumos. Perco um fiel aliado que me auxiliou durante uma década.

Pouco soube dele nesse tempo todo, até receber um telefonema no qual me quer contar uma série de acontecimentos que vivera nos últimos vinte, vinte cinco anos. Convido o a jantar em casa e chega com sua esposa, Diná.

— Diná?— pergunto.

— É meu pai quis homenagear a Diná de Oliveira, que foi atriz, pianista, compositora, além de ter fundado o Teatro de Amadores de Pernambuco.

— Você é de lá?

— Sim. Da região do agreste, de uma cidade que se chama Belo Jardim.

— Você é artista ou alguma coisa do gênero?

Ela ri gostoso e responde:

— Não, cuido das coisas do meu marido.

Mas, afinal o que tem feito nesse tempo todo homem?

Severino, ainda com aquele jeito de menino que tinha trinta e quatro anos antes, revela que com muito sacrifício conseguira entrar na USP e cursar Sociologia para, mais tarde, fazer mestrado em Antropologia Cultural. Ficou, durante o jantar, explicando que desde cedo precisou entender o porquê do preconceito em cima do nordestino; como na cidade que escolhera para viver, as pessoas não relacionavam figuras notáveis com sua região: Castro Alves, José de Alencar, Patativa do Assaré, Graciliano Ramos, Gilberto Freire, Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto, Ariano Suassuna e tantos outros literatos e cientistas que influenciaram inclusive a formação intelectual do próprio paulistano.

Tom Zé, o jardineiro de coração

O Nordeste tem uma riqueza cultural que vai longe e além de suas tradições folclóricas, continuava Severino, veja na música o Alberto Nepomuceno e Eleazar de Carvalho, ou na pintura, Aldemir Martins, José Cláudio e Romero Britto. A lista de memoráveis ia longe, nos lábios de meu ex-jardineiro. Aliás, não sei se chamá-lo de ex-jardineiro, já que nesse tempo todo cultivou algo muito importante: um jardim onde cabem todas as formas e jeitos, todas as cores e nuances, todos os tipos e expressões. Nesse momento, não sei por que, mas, lembrei do Tom Zé, o baiano de Irará, considerado um dos artistas mais originais da música popular brasileira que, segundo ele próprio conta, é jardineiro de coração.

Ah! esse jardim gigante, com 8.514.215 km2, se chama… Brasil.

Autor: Raul Cânovas

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