O jardim do sultão

Era deslumbrante, entretanto a paisagem que criaram para ele não podia ser julgada apenas pela estética

 

O que surgia, ao olhar dos visitantes, era a nudez poética da natureza, ordenada de modo a respeitar sua dinâmica, isto é, as forças ativas que regem a ordem natural do silvestre. Cruzar as portas que separavam o palácio da área externa era descortinar a vista do bucólico, deixando para trás qualquer maneirismo artificioso. Era livrar-se dos supérfluos para, espontaneamente, sentir a beleza verdadeira, despida de estilos e de qualquer ornamento que lhe ofuscasse sua essência.

Com uma delicadeza fantástica, a equipe que desenhou esse espaço de quinze hectares em Marrakesh, no inicio do século XVIII, permitiu que a flora marroquina encontrasse a melhor oportunidade para desenvolver um luxuriante espetáculo paisagístico. Carvalhos, oliveiras, tamareiras, argânias, acácias, tawarzas e giestas conviviam com rosas, jasmins, laranjeiras e gerânios, trazidos pelos botânicos que se aventuraram por terras distantes, apenas para glorificar o sultão Sidi Mohammed Ben Abdellah. Como todo paraíso que se prezasse de verdadeiro, foram construídas muralhas que o protegiam dos olhares externos, mesmo assim a cordilheira do Atlas podia ser vista com seus picos nevados, elevando-se a mais de três mil metros acima do Mar Mediterrâneo.


Sidi Mohamed ben Abdallah

O traçado obedecia ao conceito do poder infinito de Alá, que é evidenciado por alamedas interrompidas por fontes que se repetem com certa força rítmica, sugerindo o Infinito. Um pomar aparece para lembrar uma passagem de Maomé, quando este é perseguido pelos escravos dos três irmãos Thaqif. Enfurecidos, por causa da visão religiosa do profeta, vão atrás dele que acaba se refugiando no pomar de Utba ibn Rabi’a e de seu irmão Shayba, que presenciaram a violência. Apesar de não compartilharem a fé de Maomé eram conhecidos pela sua justiça. Em Meca, deram-lhe um lugar para que se refugiasse e restabelecesse forças comendo uvas. Naquele momento Maomé deve ter sentido a falta de sua amada Khadija, já falecida, de seu amor e de seus conselhos, mas encontrou um refúgio divino nesse pomar perfumado pelas flores das laranjeiras.


Hotel La Mamounia

Hoje esse lugar faz parte de um complexo hoteleiro, o La Mamounia, com cento e trinta e seis quartos, setenta e uma suítes, e três riads, (apartamentos com três quartos com mais de 700 metros quadrados, sala e piscina, terraço, jardim e piscina próprios). Um conto das Mil e Uma Noites…

Autor: Raul Cânovas
 

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