O brando outono

Ontem, no início da noite, chegou com a brisa fresca soltando algumas folhas de um capixingui de meu jardim

Tirou dele o peso do verão e de suas chuvas. O libertou de uma porção de efêmeros verdes, mostrando um pouco de sua desnudez, para iluminar-se dos azuis que o céu se tinge. Há algo de primavera neste outono brasileiro, com seus ipês-rosa, suas paineiras e as mirindibas prematuras que dão à luz flores, copiando as cores de bebês rosados. As temperaturas febris nas cidades se escondem em outro hemisfério, abrindo alas para o frescor de uma estação amena que em nada se parece com os outonos gélidos da Europa o do Norte da América.


A Cattleya labiata, em estado silvestre, floresce no outono.

Era comum associar outono à decadência, ao começo da inexorável velhice com final previsível. Eu prefiro imaginar entardeceres, onde consigo ouvir a sinfonia do vento inspirando um concerto de Saint Preux para flauta doce. Acho melhor sonhar com um outono cheio de graça e de anêmonas e de flores de caquizeiros que prometem seus frutos no inverno. Essa estação, no Brasil, é como seu povo sessentão ou com seus setenta e tantos anos esperançosos, porque ainda são jovens e atraentes como essa orquídea nordestina, a Cattleya labiata, que é cheia de matizes e sensualidade.

O nosso outono é assim, inspirado pelo jasmim-dos-poetas que perfuma estes meses docemente, soltando alvos versos… em forma de flores.


Jasmim-dos-poetas (Jasminum polyanthum)

Albert Camus (1913 -1960) escritor e filósofo francês, disse certa vez: “Outono é outra primavera, cada folha uma flor”.

Autor: Raul Cânovas

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