Lara, a deusa do silêncio.

Tem dias que amanhecemos um pouco menos afobados do que habitualmente e por isso, talvez, mais pensativos, mais reflexivos.

Enquanto tomava meu café da manhã, senti a falta daqueles barulhos rotineiros, que pontualmente invadem nossa intimidade para lembrar-nos que temos que abandonar a sonolência e que é hora de pegar no batente, por isso, acordei mais lentamente e também por isso, quem sabe, lembrei de uma estória estranha que o tio de um amigo meu, nos contara quando ainda éramos crianças.

Era um dia como o de hoje, meio parado, e aproveitando que não tínhamos aulas na escola o Rafa, eu e outros colegas, brincávamos de “sisudo” no jardim da casa dele. Não sei se vocês lembram, mas o “jogo do sisudo” era aquele em que os participantes deveriam ficar sérios e em silêncio, até que alguém risse ou falasse, e como punição o garoto tinha que pagar uma prenda. Era muito legal, mas nesse dia foi muito melhor, porque tivemos a “canja” do tio do Rafa. Aproveitando a brincadeira de forçar a mudez, nos contou que antigamente existia uma deusa que era venerada, exatamente, porque não falava. O interessante era que essa divindade tinha três nomes, ou seja, tanto podia ser invocada chamando-a de Lara, de Muta ou de Tácita, e era lembrada sempre que se quisesse combater os ruídos inúteis e o barulho excessivo. O tio do Rafa era um ótimo contador de estórias e conseguia que todos ficassem bem quietinhos e calados enquanto ele falava.

Eu já não lembro os detalhes da fábula, mas me recordo que a deusa dos três nomes se manifestava por intermédio dos louros, ou seja, como não podia ou não queria sair de seu mutismo, respondia sem voz, as perguntas das pessoas, fazendo com que as folhas do loureiro, jogadas no fogo crepitassem das formas mais diversas, e assim, dessa maneira, quebrava o silêncio para revelar os mistérios que eram inexplicáveis para todos.

Esse processo adivinhatório que era conhecido como dafnomancia pelos povos antigos, na realidade escondia a vontade que os homens sentiam de ouvir a linguagem das plantas, não se conformavam com a taciturnidade da floresta sempre insondável e silente.

Hoje, acho muito engraçado ouvir uma amiga extremamente falante, que por uma grande ironia do destino foi batizada, ao nascer, com o nome de Lara, e ainda, por uma casualidade, descobri que ela detesta louro na comida, nem uma folinha no feijão, suporta. Prefere distância dessas folhas tão aromáticas, vai que fique afônica por essas influências mitológicas e a prive das tagarelices do dia a dia.

Eu por prudência nunca vou contar a ela que existe uma deusa do silêncio com seu nome e, muito menos, dos poderes do louro que crepitam quando jogados no fogo.

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