Haiti: um gigantesco pomar

Se partirmos da premissa que a fome é a primeira coisa a ser solucionada em um povo desesperado, as árvores frutíferas podem-se tornar uma resposta, à este drama que assola os haitianos há tanto tempo.

 

O Haiti é um país de dimensões pequenas, caberia vinte vezes na Bahia, poderia ser comparado com a Bélgica em tamanho e população, contudo as semelhanças terminam por aí mesmo, já que, se confrontarmos qualquer outro índice, ficaríamos chocados com os abismos que existem entre o país caribenho e o reino europeu.
Haiti é pobre, muito pobre. Entretanto quando Colombo desembarcou na Ilha Hispaniola, em 1492, exatamente neste local, descobrindo um novo continente, que mais tarde seria chamado de América, encontrou uma região rica, salpicada de palmeiras-reais (Roystonea regia), mognos (Swietenia mahagoni), carvalhos-do-haití (Catalpa longissima), pinheiros-hispaniolanos (Pinus occidentalis), leucenas (Leucaena leucocephala), paus-brasil (Caesalpinia echinata), paus-campeche (Haematoxylon campechianum) e muitas outras espécies.
Hoje está desbastada, o corte incessante de árvores para extração de lenha, ou fabricação de carvão, acabou com as florestas. É importante entender que eles cozinham suas refeições apenas se utilizando desse método, que consome anualmente 50 milhões de árvores, sendo que apenas 3 milhões são replantados no mesmo período. A região possui um clima propício ao cultivo de essências tropicais como: açúcar, milho, arroz, fumo e, também raízes e tubérculos comestíveis, sendo a chalota, o inhame, a araruta, a macaxeira e a mandioca os mais comuns. Mas a capacidade natural do clima e do solo haitiano é a de produzir fruta; banana, manga, coco, abacate e nêspera fazem parte da tradição alimentar. Tanto é assim que a Agência Brasileira de Cooperação, em parceria com a Embrapa, implantou uma fábrica de processamento de caju, em 2004, que tem capacidade de produzir 500k de castanha in natura por dia, além da construção de cisternas para o armazenamento de água, a ser utilizada na irrigação de hortas e pomares.
Há pouco mais de três anos os governos brasileiro e espanhol assinaram um termo de cooperação para o manejo e recuperação da cobertura vegetal da bacia do Rio Mapou, ao Norte do país. São avanços, mas o que preocupa é a falta de um plano diretor para que eles possam um dia gerenciar suas vidas; de nada adianta, por exemplo, a FAO (Food and Agriculture Organization of the United Nations) doar Us$ 23 milhões para a compra de ferramentas, adubos e sementes e assim pretender recuperar o setor agrícola sem antes capacitar esse povo para uma atividade que não apenas facilitaria, e muito, o combate a fome, mas também ajudaria a aumentar as atualmente mínguas exportações cujo destino é principalmente os Estados Unidos que recebe 80% delas. Geograficamente o Haiti está localizado a 600 k de Venezuela e da Colômbia; 400 k de Porto Rico; 200 k da Jamaica e apenas 100 k da Ilha de Cuba. Isto é uma enorme vantagem em termos de custos, para quem precisa exportar.
Hoje o mercado de frutas é liderado por China, Índia, México, Chile e o Brasil e existe um espaço aberto para os produtores de frutas tropicais menos conhecidas que ganham cada vez mais mercados. Lembram da lichia ou do mangostão? Pois é, Vietnã, Tailândia, Indonésia, Malásia e Filipinas, investiram na produção dessas, e outras pouco conhecidas até algum tempo, e se deram bem.
O brasão de armas que a bandeira haitiana luz no seu centro reza “L’union fait la force”(a união faz a força), obviamente essa união não deve se limitar apenas aos habitantes dessa nação, mas a todos nós. Desse modo, estaremos, quem sabe, tendo um alívio de consciência com aqueles que junto com um escravo negro que se chamou Toussaint L’Ouverture, libertou o primeiro país das Américas do colonialismo europeu. Pena que esse direito de agir de maneira independente nunca foi levado muito a sério pelo resto do mundo, por causa das opressões ou, pelo mero descaso de todos nós.
Chegou a hora de reparar a paisagem perdida e de reparar, também, os danos causados pela ignomínia. Você não acha?

Autor: Raul Cânovas

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