Erva-de-passarinho

Doentiamente na sua ardorosa paixão, ama ao extremo e, deixando de viver por si, torna-se parasita da árvore hospedeira, escravizando-a até a morte


Erva-de-passarinho (Phoradendron affine)

A natureza às vezes é estranha ou, pelo menos para mim, incompreensível. Há na sua essência a liberdade, no entanto alguns indivíduos, como é o caso da erva-de-passarinho, prefere depender de alguma árvore, ou de um arbusto qualquer, para viver. Viver sugando, como verdadeira vampira vegetal, a seiva que aquelas produzem e que, depois de alguns anos, exaustas, não conseguem suprir suas próprias necessidades e, por falta desse líquido nutritivo que antes circulava vigorosamente, impulsionado pelas raízes para toda a planta, definham até secarem totalmente, morrendo por fim.


Ipês infestados pela erva-de-passarinho

Os gaturamos, também chamados de bonitos ou tietes (Tanagra violacea) e as tesourinhas-do-campo (Tyrannus savana) comem os frutos da erva-de-passarinho, ingerindo as sementes que, eliminadas junto às fezes, germinam nas copas das árvores hospedeiras, parasitando-as. Na maioria das vezes passam despercebidas, confundindo-se com a fronde, dando-lhe aspecto de um salgueiro “chorão”. Obviamente esses cipós, da família das Loranthaceas, não têm a intenção de causar a morte de seu hospedeiro, porém formam colônias que se desenvolvem de modo exagerado, retirando nutrientes e água para si próprias.


Gaturamo

Cerca de 1.000 espécies de mais de 60 gêneros integram essa família espalhada pelo mundo inteiro, que se caracteriza pelas folhas grossas, a florada profusa e cheirosa, especialmente no caso da Tripodanthus acutifolius, lembrando a dama-da-noite e pelas bagas com uma semente.


Tesourinha-do-campo

Osanyin, que é o Orixá das folhas sagradas e das ervas medicinais no Candomblé, aprecia esta planta principalmente no seu abô, o preparado com várias folhas maceradas em água limpa, nas obrigações renovadas anualmente e nos abô de Babalossaim, o sacerdote dedicado às folhas. Nas renovações, esta planta é a duodécima folha que completa o ato litúrgico renovatório dessa religião panteísta.

Não existem herbicidas seletivos que acabem com esta parasita. Para erradicá-la, deve-se fazer uma poda dos ramos atacados no inverno, antes da produção de suas sementes. Durante o período de estiagem a folhagem fica rala e a praga aparece melhor. Uma boa limpeza acompanhada pela raspagem dos ramos grossos infestados é importante, porque evita a rebrota da erva-de-passarinho a partir de restos aderidos aos galhos ou troncos. Isto é aconselhável porque ela emite raízes que penetram no caule e nos ramos da planta hospedeira, sugando-lhe a seiva e ocasionando sua deformação. Os biólogos não conseguem precisar com exatidão quanto tempo uma árvore contaminada leva para morrer. O tempo de vida, após a contaminação, depende da espécie, dos nutrientes disponíveis no solo, do estresse e da poluição do ar.

Como diria Platão, “quem ama extremamente deixa de viver em si e vive no que ama”… Coisas da natureza!

 

Autor: Raul Cânovas

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