Egito: uma paisagem em chamas

Nos anos oitenta Mustafá trabalhou comigo como assistente. Tinha-se formado em arquitetura no Cairo e desenhava como ninguém.


Jardins do Museu em Chamas

Durante anos, antes de imigrar ao Brasil, projetou casas para as comunidades carentes ao longo do Rio Nilo. Com ele aprendi a ser mais paciente com a natureza e não cobrar dela uma rapidez que não tinha nada a ver com o lento crescimento de uma tamareira ou de uma oliveira, plantas típicas de seu país. Ele contava que lá se misturavam, de repente, o deserto e uma farta vegetação, com um vigor impressionante, causando um contraste paisagístico raro de se ver em qualquer outro lugar do planeta.

Os oásis surgiam como manchas que salpicavam as areias do deserto de Saara, funcionando como edênicos jardins de salvação para aqueles que o atravessavam. Neles cresciam pessegueiros, figueiras, romãs, junto aos alecrins, às mentas e aos jasmins, que perfumavam as fontes de água transparente. Tâmaras doces sempre eram oferecidas por algum nativo, contava Mustafá.

A cultura do antigo Egito foi beneficiada por uma série de fatores geográficos que contribuíram para o florescimento de uma das culturas mais remotas do mundo. O Nilo, depois das enchentes, deixava um solo muito fértil, permitindo produzir alimentos em abundância e outros produtos como: trigo, cevada, linho, algodão, uvas, favas, alface, grão-de-bico, gergelim, pepinos, cebolas, alho-poró, tomilhos, maçãs, papoulas, orégano, mirto, lentilhas, feijão, melancias, melões, ,laranjas, bananas, limões, etc.

Isto possibilitou aos habitantes da região um tempo ocioso que foi utilizado para as artes e para desenhar jardins, a partir do ano 1400 a. C. durante o reinado de Hatshepsut. Viúva de Tutmosis II, foi a única mulher faraó da história. Mais tarde, Akhenaton, que teve seis filhas e nenhum filho da sua principal esposa, Nefertiti, criou uma cidade fantástica, Akhetaton, capital efémera do Egito que durou apenas 15 anos, com muitos jardins para adorar o deus Aton, o deus sol, de uma nova religião. Após a morte de Akhenaton, o poder ficou nas mãos de Nefertiti por pouquíssimo tempo. Sucedeu-lhe então Tutankhamon (1336-1327 a.C.), que tinha apenas sete anos. O jovem faraó abandonou a nova religião e mandou restaurar os templos do Egito, mas só mais tarde é que a religião de Aton seria completamente excluída e perseguida. Os jardins, no entanto, continuavam marcando uma tendência de limitar a infinitude do deserto, fechando-se com a intenção de conter a hostilidade da paisagem erma e desabitada e os possíveis ataque de tribos hostis e animais selvagens.

A geometrização do traçado das áreas verdes era explicada pelo fato de serem um povo que dominava a matemática, a geometria e a astronomia, e também para por uma “ordem” no “caos” do agreste.

Infelizmente não é esse caos que agora preocupa. O Egito, com seu passado de glória, seus faraós, Cleópatra, o rei Faruk, o presidente Anwar Al Sadat e sua esposa Jihan Sadat, enfim, tantas personalidades ou personagens, não me cabe julgar, tem hoje nossa torcida e o nosso desejo de paz.

Fico, mesmo que seja de modo imaginativo junto ao amigo Mustafá, que não vejo há tanto tempo, almejando um Egito sem fumaça, onde apenas prevaleça os vermelhos das anêmonas, das ervilhas-de-cheiro e das papoulas, em lugar do sangue desse povo.


Saques ao Museu Egípcio do Cairo

Essas flores sempre fizeram parte da nação egípcia e devem voltar a ser parte da paisagem, uma paisagem que precisa ser rastelada, livrando-a de tudo o que não permite sua original beleza.

Autor: Raul Cânovas

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