Divagações sobre minhas experiências com o belo

Raul Cânovas

Comecei descobrindo a beleza quando meus olhos de bebê ainda não sabiam olhar. Intuí a delicada simetria do torso de minha mãe, enquanto mamava algo que era bom e que fluía generosamente. Minha primeira aula, sobre conhecimento sensorial, ensinava-me que o bom e o belo podiam ter um significado análogo. Descobri muitos anos depois, que na Grécia Antiga acreditavam que a beleza era a consequência da felicidade dos deuses e estes, quando sorriam, demonstravam sua bondade e sua graça que era definida em uma única palavra: ”Calagathon”.

Chamava minha atenção tudo aquilo que uma criança julga de lindo, ou de brilhante bizarria: o Chevrolet, ano 1947 de meu pai, os contornos sinuosos de minha professora, do 2º ano, do ensino fundamental, que se chamava Lidia, a camisa de meu time, River Plate, as bolas de gude transparentes (tinha um montão delas), os filmes de Superman, os de terror, os cômicos e todos aqueles que me levavam para lugares incríveis, lugares que me ensinavam à diferença entre o feio e o graciosamente elegante. Ia desenvolvendo, de modo inconsciente, minha teoria sobre o conhecimento sensível, perceptivo, aquele captado pelos cinco sentidos e que alimenta nossas intuições. Esse saber sensorial definia o que era estética para mim, muito antes de qualquer explicação racional.

Na minha puberdade comecei a ter noções de que a estética tinha também, uma pré-história. Um passado muito anterior ao do filosofo Platão, que chegou afirmar que o belo é uma manifestação do bem, da perfeição e do que é verdadeiro. Já no período Paleolítico Superior, quando surge o Homo Sapiens Sapiens, a evolução artística alcança uma expressão notável, tendo como fonte de inspiração a paisagem que esse ser humano experimentava e, que através de seu comportamento emocional, lhe provocava a necessidade de recriar as assimetrias de seu contorno. Eram imagens de uma arte pura, que interpretava a ingenuidade de um bosque onde as árvores cresciam dignamente. Nas pinturas rupestres, primeiro, nas proximidades da caverna, mais tarde, tentavam copiar a arte divina daquele Altíssimo que, trovejando, dava existência ao que não havia. Embora não conseguissem tirar algo do nada, se contentavam imitando aquilo que era a essência do embelezamento de suas vidas.

Quem sabe, foi dessa maneira que os primeiros aspirantes a jardineiros começaram a encarar a pretensiosa tarefa de melhorar a paisagem que, segundo o Genesis, Deus criara no 3º dia. Existem exemplos arqueológicos na cidade de Khorsabad, no Iraque, onde os Sumérios construíram jardins 3000 a.C.; na Babilônia, mil anos mais tarde; em Xangai, China, quando a dinastia Shang reinava,por volta de 1700 a.C. e, também no Egito, na cidade de Tebas, onde o faraó Amen-hotep 3º mandou construir, 1400 a.C. um fantástico jardim, na ante sala de sua câmara mortuária.

Atrevo-me argumentar que nós, paisagistas contemporâneos, deveríamos estar cientes que, ao delinear um espaço ajardinado, estamos produzindo algo original, inédito. Isto porque, sendo criativos, não haveria motivo algum para copiar ou reeditar uma obra anterior. Alguma coisa me diz que precisamos, de vez em quando, dar uma olhadinha para trás e perceber, como os jardineiros de outrora, respeitavam a matéria prima mais notável, para planejar um belo jardim: a planta. O paisagista é o único designer (desculpem o estrangeirismo) que trabalha com materiais vivos, materiais estes que, independente de nossas vontades e diretrizes, determinarão seus próprios destinos. Por esse motivo, insisto, há um pouco de respeito quase religioso em tudo isto. Não que deve constituir um rito sentar na prancheta ou no computador, mas sim uma obrigação moral de dar o melhor de nós mesmos, se quisermos ser vistos como criativos daquilo que é belo.

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