Como criar um jardim

Imagine um espaço vazio, apenas uma terra nua, nenhuma planta, nenhum indício de vida. Nada

Por onde começar? Já ouvi dizer que, em primeiro lugar, devemos afiar nossas ferramentas antes de iniciar uma tarefa. Então o que há de melhor do que fazer algo bem simples, como sonhar? A ferramenta do criativo é o sonho, a arte de visualizar formas e cores, símbolos e qualquer outra coisa guardada no inconsciente que possa servir para a produção de formas novas, formas que representem a emergência de algo inédito e exclusivo. Criar é estar aberto para enxergar problemas e deficiências, é ser sensível com as desarmonias (sem afetações). É ter liderança com uma equipe que preencha todas as necessidades de um planejamento. Se formarmos um grupo multidisciplinar poderemos organizar uma criatividade em grupo, onde haverá um processo que irá apontar as lacunas do conhecimento, formulando não apenas as hipóteses e sim as soluções destas.


Criatividade em equipe

Lembro de um filme, quando estudei cinema, lá pelos anos de 1960. O título era “Roma, città aperta”. Nele, Roberto Rossellini mostrava a realidade do cotidiano com alguns atores amadores. Não usou estúdios, apenas externas reais, sem cenografia nem iluminação, a câmara era manual e o gravador simplérrimo. A edição não usava os artifícios digitais que o cinema emprega hoje e, mesmo assim, esse filme de 1945, com Aldo Fabrizi e Anna Magnani, marco do neo-realismo italiano, foi premiado com o Grand Prix de melhor filme no festival de Cannes, em 1946. Cito isto porque o paisagismo é uma arte coletiva como o cinema e, mesmo Rossellini, com um parco orçamento numa Itália devastada pela guerra, precisou da ajuda de uma equipe reduzida para concretizar sua obra. Até Glauber Rocha, que em um momento proferiu a célebre frase “Uma câmera na mão e uma ideia na cabeça” teve que se valer de colaboradores para filmar Deus e o Diabo na Terra do Sol, Terra em Transe e Di Cavalcanti, entre outros.


Glauber Rocha filmando

Nos escritórios de paisagismo contemporâneos a "criatividade em equipe" é o atalho mais rápido para modernização e atualização de seus diversos métodos de gestão e de produção de projetos. É evidente que as produções cinematográficas atuais contratam uma equipe enorme para uma filmagem e isto garante um resultado de qualidade, tornando suportável um filme que, às vezes, é apenas medíocre, mas que graças a uma produção apurada que caprichou na fotografia, vestiário, make up e trilha sonora, entre outros, o tornou suportável.

A garantia de um bom planejamento paisagístico reside na troca de opiniões, nos distintos pareceres, no modo de enxergar ângulos diversos do mesmo problema. É assim que poderemos transformar uma ideia mental em algo prático e exequível. Porém o paisagista deve reservar-se a responsabilidade final, não atrelando-se a convenções nem aos dogmas da moda. O criador de paisagens deve possuir a expressão artística e técnica que reflitam o resultado cabal da sua liberdade, mostrando que pode melhorar os fundamentos da sobrevivência por meio de jardins que sejam vistos como bens duráveis e indispensáveis desde o ponto de vista, não apenas físico, mas especialmente psicológico e mental. Isto vai atender uma sociedade cada vez mais necessitada de funções específicas e duradouras, resultantes de um design isento de artificialismos.

Autor: Raul Cânovas
 

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