Como construir um jardim sustentável - Parte IV

29. Quando não vê sentido em sua existência o jardim se entrega ao desespero.

A vida, para o jardim, é uma constante procura de sensações: perceber o amanhecer, pressentir a chuva quando o vento abusa e agita as folhas de todos, contar estrelas…

Não existem medos, nem rancores. Não há passado, nem futuro, para ele. Apenas o presente. Mas, sempre há um mas, quando ridicularizamos seu aspecto. Quando abusamos de produtos para que floresçam mais, quando ultrajamos seus pudores com tesouras e o aborrecemos arrancando aquilo que era inerente a ele, quiçá um companheiro inseparável apesar da aparência, surge o desespero, a dolorida esperança truncada de não ser.

30. Plantar espécies que isolem os barulhos externos.


Cerca Viva

A poluição sonora é outra das preocupações nas grandes cidades. Os renques compactos, formados por uma vegetação mista (arbórea e arbustiva), conseguem minimizar ruídos externos. Música alta produz mais ou menos 90 decibéis, um aspirador até 70 dB e um grupo de pessoas conversando 50 a 60 dB. Se plantarmos uma cerca formada por plantas com folhagem densamente estruturada, conseguiremos reduzir os ruídos em 10 decibéis por metro de largura da sebe. Portanto uma mata fechada formando um cinturão de 10 metros de dimensão transversal, teria a capacidade de silenciar a maioria dos barulhos cotidianos.

31. Imaginar massas verdes que “trabalhem” estabilizando a temperatura e a umidade ambiente.
Nos jardins de um edifício térreo ou em uma área arborizada de um espaço público, como uma praça, por exemplo, a temperatura é na maioria das vezes, muito mais amena que em uma calçada junto a prédios. A diferença pode chegar, em determinados horários, a 8° menos, junto a uma área verde e a umidade sobe bastante, propiciando conforto ambiental.

É notória esta diferença quando ficamos em pé sob uma árvore frondosa. Em nada se compara com a sombra de uma marquise onde, apesar do sombreado, o calor e a sensação térmica são intoleráveis.

32. Os defensivos, mesmo quando alternativos, são tóxicos. É preferível favorecer o desenvolvimento dos inimigos naturais que controlam insetos.
Insisto na tese de que o uso de plantas, respeitando suas características, é o modo de evitar infestações de pragas e doenças. Espécies que moldaram sua existência no convívio direto com o sol, nunca cresceram sadias em locais sombreados assim como, aquelas originarias de zonas temperadas, são inadequadas em regiões tropicais, só para citar alguns exemplos. No entanto, se for indispensável o uso de um defensivo manufaturado, este deve ter pouca toxicidade, pertencendo ao grupo toxicológico IV, com manejo e aplicação descomplicada. Como mencionei no item 13 a utilização de plantas defensivas é menos agressivo ao meio ambiente e, às vezes, mais eficaz ao longo do tempo. O cravo-de-defunto (Tagetes patula) controla nematóides, ácaros, pulgões e outras pragas, o cinamono (Melia azederacha) é uma árvore que funciona como uma armadilha notável, impedindo infestações de mosca-branca.

E ainda, lagartas, pulgões e ácaros são controlados com pulverizações feitas com soro de leite e, também, com farinha de trigo que, uma vez seca, forma uma película que envolve os insetos, sufocando-os.

33. Optar, sempre que necessário, por essências lenhosas que efetuem depuração bacteriana.
Árvores absorvem o excesso de dióxido de carbono (CO2) lançado para a atmosfera através da queima de combustíveis fósseis, provenientes dos veículos de transportes. Estes poluentes destroem a fragrância das flores, inibindo a aproximação dos polinizadores como besouros, abelhas e borboletas que, em ambientes silvestres e despovoados, são atraídos pelos aromas a distancias de até 1.200 metros. Em contrapartida, nas metrópoles os perfumes são exalados a, no máximo, 300 metros. Isto explicaria a desaparição de espécies que dependem exclusivamente da fauna que transporta o pólen.

34. O jardim exibe, desde sempre, a fugacidade da vida. Aceitar a caducidade de uma planta, cuidando-a, é uma forma de sustentar nossa ética.


A morte de uma árvore

A percepção da transitoriedade da nossa existência nos leva sempre à ideia da morte, tida como a máxima expressão da fugacidade da vida. O medo do fim, deste ocaso, nos torna ignorantes na presença de uma árvore senil. Não compreendemos que findou um ciclo e que sua ausência permitirá a entrada de mais sol e seus restos servirão de adubos para os rebentos que surgem.

35. Nos fundos de vale, escolher árvores de mata ciliar, que absorvem com mais facilidade as águas das chuvas, reduzindo enchentes.
O Brasil possui uma quantidade enorme de plantas lenhosas que são chamadas de ribeirinhas, ou ripícolas, e ocorrem nas margens de rios, represas e mananciais. São conhecidas, também, como ciliares, porque da mesma forma que os cílios protegem os olhos, elas resguardam as margens do assoreamento que causa a morte dos rios devido à redução de profundidade. Os processos erosivos causados pelas enchentes, ventos e o lixo químico, desagregam o solo que só pode ser mantido estável com essas árvores. Há espécies pioneiras para serem usadas no caso de áreas degradadas extremamente rústicas e com atrativos paisagísticos como: araçá-do-mato (Campomanesia guazumaefolia), caroba (Jacaranda cuspidifolia), ingá-feijão (Inga marginata), cassia-manduirana (Senna macranthera) e muitas outras.

36. Nos topos de morro, mesmo no ambiente urbano, utilizar espécies arbóreas que não dependam de regas com intervalos regulares.
Nestes casos selecionar árvores cujo crescimento natural seja atrelado a solos de baixa fertilidade natural, ventos e seca, como: angico-branco (Anadenanthera colubrina), ipê-branco (Tabebuia róseo-alba), monjoleiro (Acácia polyphylla), tarumâ (Vitex megapotamica), etc. São espécies nativas, características da floresta decidual.

37. Podar apenas, para eliminar ramos doentes, corrigir a tendência desacertada de crescimento ou aumentar a florada. Nunca para artificializar o aspecto natural.


Podar

A vida contemporânea evidencia uma tendência ao artificialismo como estilo específico de nossas ações no mundo. Quem sabe o jardim se transforme no último reduto espontâneo no nosso cotidiano?

38. Entender o jardim como uma parte do todo urbano, integrando-o à paisagem da região.
A paisagem urbana deve ser entendida como algo lógico e coerente no emaranhado de prédios, viadutos, ruas e espaços que compõem o ambiente da cidade. Sabemos que é impossível sustentar aquela vida do vilarejo, no século XIX. Entretanto urge aceitar que cidades carentes de espaços verdes, são levadas à uma agonia que arrastará seus habitantes para uma caminho que não tem retorno.

39. A polis perfeita deve ser “vestida” com uma paisagem imaculada, pura e isenta de adereços grotescos.
Os gregos, no século VIII a. C. chamaram de pólis o modelo de cidade que definiria a vida urbana com sua sociedade organizada. Isto não excluía a estética como elemento essencial na vida dos atenienses. Péricles queria que a beleza de Atenas fosse condizente com seu prestígio. O decreto de 450 a.C. lhe dava o direito de dispor da verba necessária para grandes obras, como o Parthenon. Anos mais tarde Platão funda uma escola de filosofia e ciências que ficou conhecida como a Academia. A escola se situava em uma alameda arborizada e com seus alunos caminhava sob as árvores enquanto lecionava descobrindo o prazer do conhecimento aliado ao bucólico. Atenas era culta e distinta e, embora rica e opulenta, quase pomposa, jamais foi tentada pela distorção do ridículo que caracterizou muitas culturas na historia.

Autor: Raul Cânovas

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