Cannes homenageia as paisagens de Bertolucci

O diretor de cinema receberá uma Palma de Ouro honorária pelo conjunto de sua obra, marcada por cenas bucólicas


Cartaz do Festival, onde aparece retratada a atriz Faye Dunaway

Foram filmes deslumbrantes, mas não é minha intenção destacar o conteúdo deles, prefiro falar hoje das locações deslumbrantes que meus olhos de paisagista contemplaram de modo a me fascinar. Lembro de “Assédio”, filmado em Roma e mostrando a Piazza di Spagna com sua fonte criada por Bernini em 1628, de “O Céu Que nos Protege” com a direção de arte do fantástico Andrew Sanders, que escolheu o deserto africano como pano de fundo do drama protagonizado por Debra Winger e John Malkovich. Nunca vou esquecer de ver pela primeira vez a Cidade Proibida, em Pequim, no “O Último Imperador”, este que foi o primeiro longa metragem a ter autorização do governo chinês para filmar esse palácio imperial que, durante cinco séculos, foi a residencia de soberanos e seus familiares. O filme, que utilizou 19 mil extras no decorrer das filmagens, ganhou o prêmio Oscar em todas as nove categorias em que foi indicado.


Piazza di Spagna, Roma

Bernardo Bertolucci, o poeta da câmara, estudou na Universidade de Roma, foi assistente de Pier Paolo Pasolini e colaborou com Sérgio Leone escrevendo o roteiro de “Era uma vez no oeste”, um dos clássicos do Western Spaghetti. Se você não lembra, foi ele mesmo que escandalizou o mundo e chacoalhou a crítica com “O Último Tango em Paris”, interpretado por Marlon Brando e Maria Schneider que dançavam a trilha, que se tornou famosa, do compositor e arranjador argentino Gato Barbieri. A fotografia foi entregue ao premiado Vittorio Storaro, que mostra uma melancólica capital francesa.


Bertolucci em 1987 durante as filmagens de "O Último Imperador"

Foram muitos os filmes de Bertolucci, acho que em torno de vinte, e em todos eles há um cuidado extremo com a paisagem, não importa se na China, em Paris, Roma ou na Emília Romanha do “1900” (em italiano, novecento). Ele sempre dá um clima a seus longas exaltando a dramaticidade dos diálogos com o contorno, e são esses diretores de cinema que muitas vezes inspiram criações que, aparentemente, não têm muito a ver com a sétima arte. Quando projetamos um jardim é fundamental montar uma equipe bem afinada com aquilo que pretendemos fazer. Exatamente como em um filme, cada produção requer uma série de especialistas: produtores, músicos, cenógrafos, fotógrafos, maquiadores, figurinistas e tantos outros, assim como em um projeto de paisagismo onde precisamos de botânicos, engenheiros florestais e assessores nas áreas de geomorfologia, biogeografia, hidrologia, climatologia e química, além dos desenhistas que desempenham a importante tarefa de simular em um papel o que projetamos nas nossas mentes.


Debra Winger , contemplando o Saara em "O Céu que nos Protege"

Por tudo isto, deixo minha admiração para aqueles realizadores que, como Bernardo Bertolucci, me ajudaram a sonhar com paisagens comoventes, ora dramáticas, ora embriagadas de alegrias.

Autor: Raul Cânovas
 

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