A sombra que uma árvore presenteia

Percebeu a presença daquela escultura viva que está aí, tão perto de você?

 

Não importa onde more ou trabalhe, sempre há uma árvore que desafia sua indiferença, sua falta de tempo e de paciência para contemplá-la. Em certas ocasiões é percebida por que floresce e o vento derruba um bocado de pétalas desbotadas, obrigando-nos a varrer o chão para que volte a ficar limpo, desanuviado. Em outras reparamos que deu proteção a algum pássaro barulhento que teima em cantar logo cedo, inclusive aos domingos, quando queremos dormir até mais tarde.

O interessante é que sempre esteve aí na nossa frente e na frente de nossos pais e de nossos avôs e de todos aqueles que nos precederam desde o primeiro homem e da primeira mulher. Crescia antes mesmo da nossa existência, como que se preparando para recepcionar-nos, oferecendo algo inefável, uma coisa que não pode ser exprimida em palavras ou conceitos. Surgia no meio do mistério da vida como um componente essencial para definir a origem dos tempos e o início da nossa influente ascendência neste pedaço de Universo que batizamos de Terra. Curiosamente um sinônimo da matéria prima indispensável para que ela finque suas raízes, afirmando sua posição neste mundo que só é mundo por causa dela e de suas façanhas, ganhando batalhas do Caos. Naturalmente atira com armas que disparam oxigênio perfumado e úmido, eliminando o vazio primordial e ordenando as paisagens como se fosse uma rima inventada pelo maior dos poetas, eh! Aquele mesmo que criou a lírica eterna de todas as coisas.

Que pena que não disponhamos de mais tempo para observá-la, e como ficamos tristes sabendo da necessidade de eliminá-la para dar lugar a um prédio ou a um alqueire de soja ou de pasto para criar aqueles bois que se transformarão em bifes amanhã. Será que ela consegue compreender que já não mais precisamos dela? Que sua sombra incomoda nossos planos e que os paradigmas desta civilização não podem contemplar por mais tempo o lugar que ela ocupa?

Não sei, estou desconfiado. E se ela tramar um complô junto com um dos filhos do Caos, o Érebus, para nos cobrir com seus mantos escuros e sem vida?

Olhe para ela…será que a árvore seria capaz?

Autor: Raul Cânovas

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