A revolta do planeta em japonês

Pode ser que tudo isto seja uma consequência natural do acomodamento das placas tectônicas. Será que é só isso?


 

A Universidade de Tóquio, uma das 20 mais prestigiosas do mundo, há quase quatro anos já afirmava em estudos que existia um grande atrito entre a Placa de Filipinas e a Placa Eurásia, sobre a qual está à ilha Honshu, a maior do Japão. Inclui-se aí as cidades mais atingidas, tais como Fukushima, Sendai e Miyaho. Segundo os pesquisadores, estas placas deslocam-se a uma velocidade de 3 centímetros por ano, criando perigo de tsunamis e terremotos. Apesar das informações da Guarda Costeira do Japão e das diversas pesquisas já realizadas, há outros fatores a serem considerados para que analisemos os recentes acontecimentos na Terra do Sol Nascente.

Nessa região as cidades foram assentadas sobre outras muito antigas, possuindo estruturas frágeis, como aponta Anne Whiston Spirn, no seu livro “O Jardim De Granito”. O solo foi um receptáculo de todo tipo de resíduos humanos deixados pelos antecessores. A topografia foi repetidamente modificada, nivelando morros, aterrando fundos de vale e desviando os cursos dos rios. A superfície do solo e o substrato rochoso se conectam artificialmente por túneis, poços e fundações que as edificações e as pavimentações originaram. Segundo a mesma fonte, a retirada da água do subsolo causou o afundamento de 77 km² da baía de Tóquio até 2m abaixo do nível do mar, arriscando a que 2 milhões de pessoas sofram as consequências de furacões e enchentes. A ruptura dos diques, construídos em torno dessa área, por um terremoto ou um tsunami, seria trágica.


Anne Whiston Spirn, autora do livro "O Jardim De Granito"

As cidades degradando os recursos geológicos, especialmente com a abertura de pedreiras para extração de brita, cascalho e areia, usados 95% no asfalto de estacionamentos e vias de rodagem e 75% no concreto das construções, desestabilizam o solo urbano, prejudicando sua aparente solidez, já que o país tem 67 vulcões entre ativos e latentes. Os contínuos movimentos do solo produzem deslizamentos e erosão, afundando ou inchando a superfície das metrópoles, que ficam mais vulneráveis que as regiões rurais.

O terremoto de 2007, em Niigata, que atingiu a magnitude de 6,8 na escala Richter, provocou nove mortes e mais de mil feridos e fez reavivar o medo sobre a segurança nuclear, depois da descoberta de um grave incêndio e vazamentos radioativos na central de Kashiwazaki-Kariwa, uma das maiores do mundo.

Não descarto as causas naturais, entretanto o risco de acidentes geológicos tem muito a ver com a falta de uma análise mais profunda e menos especulativa quando se edificava em áreas sobre falhas ativas, depósitos antigos de lixo com solos contaminados, encostas ou antigas pedreiras.

O Japão tem 337 hab. por km², um número altíssimo se comparado ao nosso, que é de 22 hab./km², nada menos que 15 vezes maior do que no Brasil. Talvez por esse motivo a história ambiental deles, após a Segunda Guerra Mundial, fosse minimizada pelas empresas do governo e as indústrias. Como consequência inevitável a poluição ambiental aumentou entre 1950 e 1960. Preocupado com o problema, o governo japonês introduziu uma série de leis de proteção ambiental em 1970 e estabeleceu o Ministério do Meio Ambiente em 1971.


Floresta em Asaka

Hoje o Japão, com um solo instável e cheio de energia, onde ocorrem mil terremotos sensíveis por ano, é um dos líderes mundiais no desenvolvimento de novas tecnologias sustentáveis e se prepara para obrigar a indústria a realizar cortes enérgicos nos gases do efeito estufa, assumindo a função de líder de um país que honra as obrigações do Protocolo de Quioto. No Ranking de Desempenho Ambiental de 2010, os japoneses estão no 20° posição no mundo. Sua área florestal intocada, ou replantada, cobre 70% de seu território, preservação esta comparada apenas aos países escandinavos.

Tomara que consigam conversar mais e melhor com uma natureza que, ultimamente, mostrou-se tão revoltada.

Autor: Raul Cânovas
 

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