Crônica

Divagações sobre minhas experiências com o belo

Raul Cânovas

Comecei descobrindo a beleza quando meus olhos de bebê ainda não sabiam olhar. Intuí a delicada simetria do torso de minha mãe, enquanto mamava algo que era bom e que fluía generosamente. Minha primeira aula, sobre conhecimento sensorial, ensinava-me que o bom e o belo podiam ter um significado análogo. Descobri muitos anos depois, que na Grécia Antiga acreditavam que a beleza era a consequência da felicidade dos deuses e estes, quando sorriam, demonstravam sua bondade e sua graça que era definida em uma única palavra: ”Calagathon”.

Chamava minha atenção tudo aquilo que uma criança julga de lindo, ou de brilhante bizarria: o Chevrolet, ano 1947 de meu pai, os contornos sinuosos de minha professora, do 2º ano, do ensino fundamental, que se chamava Lidia, a camisa de meu time, River Plate, as bolas de gude transparentes (tinha um montão delas), os filmes de Superman, os de terror, os cômicos e todos aqueles que me levavam para lugares incríveis, lugares que me ensinavam...

22 de janeiro de 2010

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Crônica

Além do Jardim

Por Raul Cânovas

Às vezes me pergunto: até que ponto o prazer influencia o trabalho de alguém que, profissionalmente, tem uma atividade criativa? Será que a função do criativo é fundamentalmente dar prazer, dar alegria e conforto à seu cliente? Eu, sinceramente, acho que é pouco.

O hedonismo excessivo que se contenta apenas com o requinte, transformando tudo em um “mar de rosas”, é pobre, conceitualmente falando. Qual seria, por exemplo, a vantagem de se ter um jardim apenas bonito? Abarrotado de plantas caras, mas vazio de sugestões, insípido e sem aquele estímulo que nos obrigue a procurar, de um modo sensato, aquilo que algum dia nos transforme em sábios, não apenas do saber, mas especialmente, sabedores do que há... além do jardim.

16 de setembro de 2009

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