Crônica
No Dia do Jardineiro, deixo aqui o trecho de um texto de Vinicius de Moraes, pouco conhecido
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Rosas
Médico de flores
Gostaria de ter nos meus cartões de visita: V. de M., médico de águas. Assim seria apresentado às pessoas nas festas, em vez de como poeta ou diplomata. E ante a estranheza que lhes causaria o título, eu confirmaria gravemente:
- Sim, minha senhora, médico de águas, para servi-la...
Depois a imaginação se me partiu, e eu fiquei achando que médico de flores seria ainda mais belo. Que linda e honesta profissão a ter! E como eu seria o único do Rio, não chegaria para as encomendas, com uma clientela de fazer inveja a meus amigos os drs. Clementino Fraga Filho, Marcelo Garcia e Ivo Pitanguy, dentro de suas especialidades. Estaria assim muito bem no meu consultório e de repente minha mãe, aflitíssima, telefonaria: "Meu filho, vem depressa que minhas rosas estão morrendo..." E eu partiria com a minha maletinha para auscultar o coração das rosas, aplicar-lhes a cor...
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15 de dezembro de 2011
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Crônica
São impressionantes as coisas que podem ser achadas no lixão, nesses vazadouros onde os restos são depositados e aonde Joselino ia todos os dias

Ele era catador, filho de catadores, como se honrasse uma tradição familiar. Tinha nascido ai mesmo, numa semana de Natal, doze anos atrás e aprendera a brincar com os porcos no meio de montões de coisas que foram jogadas fora por serem inúteis, mas que por ironias sociais ele as achava, muitas vezes, proveitosas. No último janeiro, depois de todos os festejos, Joselino equilibrando-se em cima de uma pilha enorme, que acabara de ser jogada, viu algo que chamou sua atenção. Meio melecado de restos de comida, sujo e quase estropiado, um pinheirinho mostrava ainda certa vitalidade apesar do estado maltrapilho em que se encontrava. O menino, cuidadosamente, removeu as sobras que o acompanhavam e tirou uma fita vermelha com bordas que tinham sido douradas e que ainda amarravam os ramos da árvore. Depois de lavá-lo no riacho o levou para su...
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09 de dezembro de 2011
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Crônica
Acordava de manhã e a primeira coisa que fazia era sair para fora da choupana e falar para a árvore: Deus, eu estou aqui!

Ele era simples, homem da roça que morava nem tão perto de Aracu, em Goiás. Com seu jumentinho, que chamava de Dengoso, levava quase duas horas para chegar à venda do Seu Zé, nessa pequena cidade. Chico Zebedeu sempre fora um catingueiro do lugar, desde as épocas do José Jacinto da Silva, patrão do seu bisavô, um século atrás e coronel prestigiado por todos na região. O Chico nem sabia a data de seu nascimento, mas a festejava todos os dias como se fosse aniversario de borboleta e tinham muitas delas na época da florada da mangabeira, que começava sempre um pouco antes da celebração da Nossa Senhora da Aparecida. O curioso é que a velha planta, de tronco tortuoso, nunca parava de dar fruta. E as mangabas, do tamanho de um limão, com a casca amarela e salpicada de tons rosados, serviam para fazer uma compota que só a Dona Eleutéria conhecia a receita. Coisa ...
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25 de novembro de 2011
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Crônica
A Igreja celebra o Dia dos Fieis Defuntos há quase dez séculos, uma prática de quase dois mil anos

Saudade (1899), por Almeida Júnior
Em alguns países, como é o caso do México, é uma festa com grande atração turística. Lá, nesta data, organizam banquetes homenageando seus mortos para que estes visitem suas famílias e participem da comilança e das alegrias de todos aqueles que amaram em vida. Por aqui é diferente, as pessoas lembram-se dos queridos ausentes para sempre de modo melancólico. Alguns vão até o cemitério cumprindo uma espécie de ritual, carregando flores e soltando uma lágrima ao contemplar, cabisbaixos, o túmulo que os guarda. Outros, sem sair de casa, se deparam com o retrato que descansa na prateleira e o miram de maneira nada analítica, apenas tomando-o como um liame de ligação com o passado.
Saudade é a palavra que paira nas mentes de todos, não há como não lembrar. Por todos os lados a data é mencionada de forma a não se esquecer da ausência daquele que não ouv...
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01 de novembro de 2011
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Crônica
Todo ano se preparava para florir intensamente e, metodicamente, espalhava suas pétalas na calçada. Até que um dia...
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Jacarandá
Floria desde sempre nos outubros e regozijava-se por poder aliviar as frias pedras do passeio. A rotina era realizada na forma do cumprimento de um dever, fazia isto há muitos anos, antes mesmo do calçamento da rua, das guias e dessa parte mais elevada, destinada às pessoas do bairro que andavam a pé. Olhava a paisagem, desde sua copa, surpresa com tantas novidades e com essa agitação cada vez maior no quarteirão onde vivia. Eram prédios, banca de jornal, um ponto de taxi na outra esquina, enfim. A cada ano surgiam coisas impensadas tempos atrás, quando ainda era uma mudinha pequena e fora plantada ai pelo seu Miguelzinho.

Seu Miguelzinho
Seu Miguelzinho fora sapateiro, isto é, consertava sapatos. Fazia meia-sola, costurava o couro quando se separava do solado, coisas que hoje não têm importância, porque as pessoas não cultivam grandes amores pelos ...
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06 de outubro de 2011
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Crônica
O passado, o presente e o futuro não significam nada para elas. Essa noção de tempo apenas exprime nossa forma de definir a duração limitada das coisas

Não sei se vocês já tiveram essa sensação de estar sempre em uma espécie de corrida contra o relógio. Nas sociedades contemporâneas o tempo é hiper valorizado: agendas eletrônicas, iPod touch, smartphones, videoconferências, internet, correios eletrônicos, hipermídia, chat e redes sociais, como Facebook, MySpace, Orkut e Twitter, mudaram o conceito que existia do antes e do depois, obrigando mulheres e homens a repensar a filosofia do tempo. Parece que a tecnologia nos abre possibilidades antes impensadas, transportando-nos de Lisboa ao Rio de Janeiro em pouco mais de nove horas, enquanto que Cabral levou, com sua frota de navios, quarenta e cinco dias para fazer o mesmo. Isto nos faz pensar que o explorador português, na época com 33 anos, deveria fazer suas refeições com bastante calma e como bom fidalgo de linhagem, principal...
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28 de setembro de 2011
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Crônica
No âmago dos seres humanos, mesmo naqueles mais toscos ou rudes, a copa de uma árvore florida causa uma sensação de esperança.

Desde criança aprendi que a primavera era a estação das flores e que tudo era felicidade, especialmente para o jovem que encontra no amor a razão primordial de existir. Depois, mais tarde, me ensinaram que primavera também era esperança, porque exatamente essas flores que desabrocham por todas as partes prometiam frutos e fartura.
Mesmo aqui no Brasil, onde frutas e flores não deixam de abundar durante o inverno, os próximos meses predizem sempre algum tipo de prazer e de fé no futuro. Há em tudo isto algo de atávico, mesmo para nós que nos meses de estiagem usufruímos das benesses de um inverno nada cruel.

Mas, o que descobrimos agora é que na outra metade do mundo as árvores começam a perder suas folhas e as margaridas vão desaparecer sob a neve. Tomara que isso não seja um mau presságio, tomara que a natureza apenas descanse sonhando com uma nov...
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23 de setembro de 2011
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Crônica
Quando usamos a palavra agreste pensamos imediatamente em algo rude, um tanto desajeitado e até por vezes inculto

Bowdichia virgilioides
Mas será mesmo que podemos chamar de inculta uma região de 24.400 km², algo assim como 16 vezes o Município de São Paulo? É claro que a comparação não tem muita lógica, se não, vejamos: a cidade paulistana concentra onze milhões de pessoas, enquanto que o agreste tem um milhão e oitocentos mil habitantes, o que o torna bastante ermo, fora de Caruaru, Garanhuns e outras menores. Entretanto não é com estatísticas que quero ocupar esta crônica, e sim com a flora dessa região que possui a injusta fama de árida e, para a maioria, de estéril.

Copernicia prunifera
É fato que o agreste ganhou sua fama de aridez pelas poucas chuvas durante o ano, especialmente entre outubro e janeiro, período de estiagem severa. No entanto nesses solos duros e areentos prosperam árvores com quase 10 metros, mescladas com arbustos que resistem à seca graças a sua...
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19 de setembro de 2011
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