Crônica
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Tenha paciência, não me interrompa. Para contar esta minha história, preciso viajar no tempo, dar um imaginário salto, um pulo de ré, que me faça cair onde tudo se originou para dizer: “Era uma vez...” ou “Em tempos remotos...”.
Sim, seria um bom começo se eu não fosse uma árvore. Os humanos, a bicharada e até os seres mitológicos começam suas narrativas deste modo. Prefiro optar por uma forma mais vegetal, imaginando-me talvez um rebento a desabrochar suas próprias sensações.
Quero que sintam comigo essa insegurança que vivenciei, quando uma ventania me soprou no meio de um temporal estrondoso. Imaginem o que é voar sem asas, presa numa nuvem insensata e desvairada que, enceguecida, me libertou no meio do nada. Nada a contemplar e, depois da tempestade, nenhum barulho, apenas quietude e solidão.
Estava aí sozinha no meu minúsculo mundo que se resumia a um insignificante caroço, quando um incontrolável impulso fez com que desgarrasse a pele protetora, para poder soltar minha p...
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03 de fevereiro de 2010
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Crônica
Raul Cânovas
Comecei descobrindo a beleza quando meus olhos de bebê ainda não sabiam olhar. Intuí a delicada simetria do torso de minha mãe, enquanto mamava algo que era bom e que fluía generosamente. Minha primeira aula, sobre conhecimento sensorial, ensinava-me que o bom e o belo podiam ter um significado análogo. Descobri muitos anos depois, que na Grécia Antiga acreditavam que a beleza era a consequência da felicidade dos deuses e estes, quando sorriam, demonstravam sua bondade e sua graça que era definida em uma única palavra: ”Calagathon”.
Chamava minha atenção tudo aquilo que uma criança julga de lindo, ou de brilhante bizarria: o Chevrolet, ano 1947 de meu pai, os contornos sinuosos de minha professora, do 2º ano, do ensino fundamental, que se chamava Lidia, a camisa de meu time, River Plate, as bolas de gude transparentes (tinha um montão delas), os filmes de Superman, os de terror, os cômicos e todos aqueles que me levavam para lugares incríveis, lugares que me ensinavam...
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22 de janeiro de 2010
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"Não há uma fatalidade exterior. Mas existe uma fatalidade interior. Há
sempre um minuto em que nos descobrimos vulneráveis; então, os erros
atraem-nos como uma vertigem”. Antoine de Saint-Exupéry

Pois é, nos últimos dias, diversas regiões foram castigadas por chuvas
intermitentes, que ocasionaram deslizamentos de terra com enormes danos
materiais e, o que é pior, perdas humanas. As manchetes destacavam: "Acaso
infeliz" ou "Uma série de coincidências lastimáveis" e, até, "fatalidade".
Eu, entretanto, me recuso a atribuir ao fadado destino esta catástrofe
ambiental. A civilização tem sido bastante insensível com os sinais que o
nosso querido planeta vem dando já há muito tempo, e esta bola redonda que
chamamos de terra está doente e febril. Sua temperatura é preocupante e seu
corpo mostra feridas abertas que não cicatrizam.
Abusamos dela sulcando-a de estradas que não levam em conta sua necessidade
de respirar, implantamos bairros que atrofiam seu relevo e danificamos ...
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20 de janeiro de 2010
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Há alguns tipos de comportamentos nas pessoas que, se prestarmos a devida atenção, também acharemos, ao menos de modo essencial, nas plantas.

A intolerância, por exemplo, é uma espécie de sentimento muito comum naqueles que encontram alguma dificuldade para se inserir num contexto social, isto é, pessoas inaptas para adaptarem seu modo de vida ao de outros. Esta intransigência pode levar homens e mulheres a um estado de completa solidão e auto-segregação cujo clímax pode levar a ataques de terrível violência.
Traçando uma analogia entre as pessoas e as árvores, eu gostaria de focalizar os eucaliptos. Se alguém parar para pensar acerca dessa árvore verá que existe uma semelhança entre pessoas intolerantes e os eucaliptos: essas árvores não suportam a proximidade de outras plantas. Dificilmente notar-se-á a presença de arbustos, grama ou qualquer outro tipo de vegetal perto deles.
Quando preciso criar um projeto paisagístico em uma área onde já existem...
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15 de janeiro de 2010
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Nesta crônica, Raul Cânovas reflete sobre o comportamento das árvores.

Há momentos em que gosto mais de árvores do que de pessoas. Elas são inconscientes e inconseqüentes, até diria que, um pouco freudianamente. Vivem a partir da semente um mundo de sonhos, ignorando o tempo e o espaço, fincando suas raízes pelo puro prazer de bolinar o barro e parindo folhas que, mais tarde, poderão sangrar uma seiva poluída e desnutrida. Não importa, isso não importa, o que realmente interessa é o momento, esse instante jamais revivido que não levaram em conta princípios nem idéias.
Silenciosas, vivem despreocupadamente, alheias de suas próprias atividades vitais, não sentem remorsos pelo fruto, ainda verde, malogrado, nem tormentos internos por um ramo mal formado, tampouco temem a tormenta porque, simplesmente, desconhecem o futuro.
E assim, sem aquela consciência moral pela qual você e eu somos talhados, elas vivem e vivem bem. E, apesar de muitas vezes parecerem tristes e desfolhadas, j...
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08 de janeiro de 2010
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Crônica
Hoje, último dia de um ano exaurido, contemplo em plena quinta-feira a multidão andando pelas ruas, como se fosse sábado, aliás, nos últimos anos tenho percebido que as pessoas se comportam de uma maneira engraçada, quase de modo infantil nesta data, até parece que a glândula supra-renal produz um hormônio diferente. Não é bem adrenalina é um principio ativo, mais ativo e efusivo que se apresenta a caráter, produzindo trinos e bramidos. Há uma energia, uma força, algo difícil de mensurar que obriga a sorrir e brindar. É como se todos os anos um operário divino fosse incumbido de dar uma mão de verniz, contendo essências vitais que recobram e remoçam.
Esta pincelada cósmica que nos atinge cobre também a padaria da esquina, os carros e o som de suas buzinas, e ajudada pela brisa que alcança a floresta onde sutilmente da um banho em cada uma das folhas, espirrando vigor também nas cascas, que como esponjas absorvem, para embriagar flores e frutos.
Perto de onde eu moro, uma primave...
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31 de dezembro de 2009
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Conheça um pouco mais da história do pinheiro, que ano após ano enfeita nossos lares e alegra o Natal.

Contam que entre os povos pagãos da Europa Central, França, Bélgica e Alemanha, especialmente, existia a crença de que um espírito vivia em cada velho carvalho, dentro da floresta.
Com a madeira dessas árvores e que era mantida acesa a chama sagrada dos sacerdotes druidas. Estes druidas não tinham templos, reuniam-se nos bosques e veneravam algumas plantas com poderes especiais que os ajudavam nas práticas adivinhatórias, na feitiçaria e na astrologia.
Quando São Vilfrido, que era um monge anglo-saxão lá pelo século VII, começou a pregar o Cristianismo nestes países da Europa Central, encontrou crenças pagãs muito arraigadas no povo e uma delas era a do espírito que morava nessas árvores. Para acabar com esta convicção religiosa ele resolveu cortar um velho carvalho que estava plantando em frente a sua pequena igreja.
Segundo contam, nesse instante, começou uma tempestade vio...
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18 de dezembro de 2009
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Laelia purpurata
É sábado, o último dia da semana é regido por Saturno e o céu azul-escuro, como deve ser em todo final de tarde de sábado, mostra as primeiras estrelas. Apesar do frio, os crisântemos, desnudos em um vaso de alabastro, me sorriem protegendo-me de qualquer feitiço. Essas flores e a pedra branca onde elas crescem, são, também, subordinadas a esse planeta e a seus trinta satélites.
Neste nosso mundo, repleto de magia e de símbolos, as plantas desempenham um papel fundamental para a raça humana, já que alimentam não apenas nosso corpo mas, também, nosso espírito, sempre tão carente de boas energias.
As avencas, por exemplo, fortalecem a mulher, tirando seus medos, especialmente aqueles ligados a vida profissional; já o fícus é perfeito para aqueles fechados em si mesmos, melhorando a introversão excessiva e, se você quer dar uma “reforçadinha” para atrair a simpatia dos outros, cultive grama-amendoim. Tome muito cuidado com aqueles liquens que vivem aderidos...
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27 de novembro de 2009
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