Hoje é um dia especial: o Dia do Jardineiro. E para celebrar esta data tão especial para nós, Raul Cânovas nos conta a bela história de um jardineiro que se tornou rei.
Era jardineiro, mas não um jardineiro qualquer (apesar da estima que tenho por qualquer um que cuide de jardins). Era o jardineiro-mor do poderoso Erra-Imitti, majestade da mítica Babilônia, um reino que se localizava a 80 km ao sul da atual Bagdá, capital do Iraque.
Tudo isto muito antes da Era Cristã e muito antes, inclusive, de Nabucodonosor mandar construir os encantadores jardins, que se transformariam em uma das sete maravilhas do mundo.
Esse rei, sempre no início de todo ano, escolhia um súdito que ocupava o trono durante um dia, apenas um dia, e esta escolha recaía em um vassalo, um súdito de grande prestígio, mesmo porque o soberano da Babilônia não iria ceder sua coroa a qualquer um, apesar de ser por apenas vinte quatro horas. Semanas antes da eleição o reino ficava em um alvoroço geral e a corte que,...
Fiquei sabendo que hoje teremos uma festa no jardim. As plantas mais exuberantes, as flores mais viçosas e as composições mais inspiradas são as convidadas deste banquete bucólico, regado com os orvalhos das melhores safras. Neste meio tempo, fui alertado por uma comissão de beija-flores, que neste mesmo jardim, seria celebrada uma outra comemoração, homenageando uma árvore muito querida. O líder da revoada que, aliás, era o mais colorido de todos me sussurrou, minuciosamente, os preparativos comandados por um azulão e uma coruja, que se revezavam dia após dia e noite após noite para aprontar esse que seria o maior de todos os festejos.
O pássaro azul alertava para que todas as flores se unissem em braçadas coloridas e instruía centenas de borboletas para que, juntas, formassem uma boana de reflexos luminosos, também tentava convencer uma araponga a martelar apenas no início do evento e silenciar em seguida, para não atrapalhar; já no início da noite entrava em ação a coruja, que c...
Texto extraído do livro “O jardim como remédio” autoria do paisagista Raul Cânovas.
Certa vez, em uma pequena aldeia plantada à beira do rio Tapauá, o xamã, que era o homem escolhido pelos índios terenas para salvá-los de todas as doenças e malefícios, acordou mais tarde do que era seu hábito. Normalmente, antes da Lua cruzar com o Sol, ele saía de sua taba com os apetrechos de rezar e caminhava vagarosamente por uma trilha até alcançar uma clareira que ficava a uma légua e pouco do ponto de partida. Mas esse dia começou diferente. Os espíritos da noite que habitavam em seus sonhos demoraram em ceder lugar para o mundo que só se enxerga de olhos abertos. Uaican acordou com um traço de luz que corria por um de seus braços desde o ombro até a mão. Por um momento pensou que, ao levantar, o raio de Sol ficaria grudado a esse lado de seu corpo, mas isso não ocorreu. Apenas permaneceu um delicado calor que deixava um formigamento suave, como se fosse uma energia criada por um de seus ung...