Crônica

O barbeiro, o Papa e a regulamentação das profissões

Ontem fui cortar o cabelo (o que restou) e como sempre João me recebeu com um abraço. Somos amigos e às vezes confidentes já faz um tempo. Bem humorado, começou seu trabalho perguntando: Você conhece a anedota do barbeiro e o cara que foi a Roma? Não – respondi. - Então a estória é a seguinte: o cara vai ao barbeiro e começa o seguinte diálogo…

Cliente: Bom dia, Libertino!

Barbeiro: Ora, viva! Como está você?

Cliente: Tudo bem, tudo bem! Preparando minha viagem, vou a Roma amanhã, com minha mulher. Vê de deixar meu cabelo em ordem.

Barbeiro: Roma?! Xi! Que escolha, eh! Uma cidade suja, barulhenta cheia de turista pobre...

Cliente: É, minha mulher e eu queremos ver o Papa

Barbeiro: O Papa? Tá bom! Vão vê-lo deste tamanhinho, desde a Piazza di San Pietro, quando saúda a multidão desde a janela – diz fazendo um gesto com a mão, enquanto segura o pente entre os dentes.

Cliente: Não importa, de qualquer maneira iremos vê-lo

Barbeiro: Já comprou as passagens?

Cliente: - Sim, p...

07 de fevereiro de 2012

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Crônica

Desjardinar a paisagem

Quem foram os responsáveis pela desjardinização de nossas vidas, do mundo que habito, do espaço que te serve de moradia?

Aonde foi parar tudo aquilo que os séculos foram semeando nos campos de solos firmes, onde fomos construindo nossa história? Quem sabe, como em um acervo de coisas antigas, um grupo de insurgentes guarde as sementes das florestas incendiadas, os restos das copas que sombrearam tantas calçadas. E, os mais românticos escondam nos bolsos as memórias das pétalas que coloriam o jeito de viver, naquela terra onde muitos dançavam, outros cantavam e todos, todos, podiam contemplar céus azuis, limpos das poeiras que hoje os desbotaram.

Parece que houve, em certa época, o costume de colocar ordem na paisagem. Pessoas eram disciplinadas nos institutos de ensino para desjardinar os lugares onde decidiam viver, substituindo o agreste pelo que formalmente aprendiam nessas faculdades. Uns eram peritos em arquitetar habitações empilhadas, umas em cima das outras, cada vez ...

31 de janeiro de 2012

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Crônica

Quo vadis São Paulo?

 Sim, faço uso dessa expresão latina pronunciada por Pedro quando encontra Jesus a caminho de Roma.

Vista aérea da Avenida Paulista

Para onde vais São Paulo? Te pergunto isto, fazendo apelo a teus sentimentos, porque sei que você não é um amontoado de prédios e de ruas. Você tem alma e um destino traçado com histórias, algumas boas outras nem tanto, mas enfim, acontecimentos que te fizeram desse jeito monumental, respondendo, quem sabe, a um karma que foi a reação ou a consequencia de muitos acasos e da própria essência do teu destino. Afinal de contas, quantas cidades foram levantadas, ficando simples e pequenas? Quantas Santas Claras de Carapixungas se ergueram e não caminharam para diante, evoluindo como em teu caso, São Paulo?

Muitos se esquecem dos tijolos que você teve que engolir, do esforço que fez para prosperar, multiplicando atitudes para, por fim, obter uma pós-graduação em concreto e argamassa. Mas apesar do sucesso, dos aplausos da plateia mundial, fico com rece...

25 de janeiro de 2012

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Crônica

Sexta-feira 13

 Hoje é o dia dos medos e das fantasias em cima das mais variadas superstições.

Muitos, mais muitos mesmo, nem ficam apreensivos com a data, no entanto, a grande maioria, por via das dúvidas, evita passar embaixo de escadas e fogem dos gatos pretos. Há os que padecem de triscaidecafobia, que é o sentimento de inquietação frente ao número treze, cada vez que ele aparece. Os edifícios americanos e canadenses, por exemplo, excluem o 13º andar no seu sistema de numeração por causa das superstições com esse número. Normalmente pulam do 12 ao 14 ou pode ser dado um outro nome ao 13º andar. O número não é mesmo bem visto nos edifícios aqui no Brasil. Já ouvi falar de gente que entrava no elevador e não encontrava o 13 no painel, passando do 12 para o 14. Até o “rei” Roberto Carlos, que lançou em São Paulo um prédio de alto luxo com 40 andares na Avenida Juscelino Kubitscheck, seis meses atrás, pensou eliminar esse andar, mas a Prefeitura negou o pedido. Claro que, às vezes, o cantor se ...

13 de janeiro de 2012

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Crônica

Ano novo, vida nova

 Será mesmo? É possível que a troca do calendário traga mudanças ao nosso cotidiano?

Todo final de ano é a mesma coisa, desejamos aos outros doze meses de bonança e nos cobramos atitudes que, supostamente, vão fazer que pareçamos melhores perante os demais. Recorremos às frases feitas desejando que todo o mundo seja feliz. Todo o mundo mesmo! Enviamos e recebemos cartões e mensagens eletrônicas com as mais grandiosas frases, de modo indiscriminado e, na maioria das vezes, impensado.

Sei que caberia um recado jubiloso nestes últimos dias do ano, mas sei também que precisamos começar 2012 de forma sincera, manifestando emoções verdadeiras. Se pretendermos uma virada, uma nova vida, que tal ambicionar a franqueza naquilo que manifestamos e também, claro, em tudo que almejarmos para nós mesmos?

A boa educação manda que, diplomaticamente, usemos de cortesia com todos aqueles que nos são próximos. No entanto pertencemos a uma geração com inter-relacionamentos intensos, onde vizinhos,...

30 de dezembro de 2011

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Crônica

O Jardineiro do Ano

 Não foi alguém que frequentou colunas sociais e baladas ou circulou nos bares da moda. Ele não pertence a tribo alguma.

Devotado, destinou cada dia, cada momento a cuidar dos muitos jardins que lhe eram confiados. Semeou um pouco de tudo e plantou aspirações, cultivando perfeitamente com suas muito usadas ferramentas. Não ficava totalmente satisfeito com o rumo que a natureza imprimia ao seu trabalho, apesar disso ,entendia que sua diretividade terminava onde as vontades de toda essa força ativa, que comandava a ordem natural de seus jardins, deveriam prevalecer sobre seus próprios desejos e até caprichos. Tomava cuidado ao podar algo, imaginando que isto poderia interferir no livre arbítrio da planta e tentava corrigir sua postura, conduzindo delicadamente seus ramos, disciplinando o crescimento. Afinal de contas, não tinha sentido impor uma ordem rigorosa e sim liberar esse potencial de crescimento, respeitando a energia e o histórico que ela possuía, levando em conta a capaci...

28 de dezembro de 2011

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Crônica

O paisagista

 Afinal de contas, qual é sua função?

Roberto Burle Marx: um dos maiores paisagistas do século XX

Há milênios que o mundo se organiza procurando o bem estar destes pobres terrícolas que nele habitam. Inventamos a roda, Prometeu roubou o fogo dos deuses, criamos o calendário, vasculhamos todos os mares e descobrimos a América. Entretanto ainda não achamos o verdadeiro sentido da vida, apesar do filósofo Platão, de Arjuna, o herói do Mahabharata e dos esforços de Sigmund Freud e de seus seguidores.

Os médicos cuidam das pessoas para que possam viver mais e com saúde, arquitetos se preocupam com moradias confortáveis e os advogados administram a justiça nos salvando (pelo menos tentam) dos iníquos. Mas e os paisagistas? Qual é a utilidade deles, se a paisagem já existia antes mesmo de Adão e de Eva? De quem foi a ideia de mexer com a natureza na tentativa de colocar ordem na sua flora? Ora, isto parece de uma presunção e de uma arrogância colossal. Reagrupar árvores, fazer cerc...

27 de dezembro de 2011

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Crônica

Felicidade

 Nos últimos dias recebemos tantas mensagens... tantas! Algumas de leitores, de amigos muito próximos, outras lindas de seguidores e até de pessoas afeiçoadas, quase almas-gêmeas.

Vi que, em todas, a palavra felicidade estava impressa e me perguntei: por que todo o mundo deseja isto? Por que desse anseio de satisfação plena?

Busquei as respostas no meu jardim e para “ouvi-lo” fiquei contemplando o canto mais agreste dele, um espaço onde tudo crescia livremente e de forma quase casual. Percebi que as plantas sentiam o prazer da liberdade imprudente; aquela que não precisa dos mitos que amargam a existência. Impunemente soltavam folhas e mais folhas de modo inconsequente e, mesmo assim, o equilíbrio dos verdes era como se bastasse a doutrina da alegria, recheada de beneplácito e volúpia. Era evidente que pouco ligavam com aparências, estavam jubilosas por dentro, ocupadas em sentir a seiva fluir nas suas entranhas.

Seria fácil evitar o sofrimento? Alcançar as metas e a auto-suf...

23 de dezembro de 2011

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