Crônica

Fala Recife!

Sim, me conta de você, como é que se sente frente a esse crescimento todo?

Como são suas horas, seus dias, esse cotidiano marcado por uma contemporaneidade, às vezes, impiedosa, que te obriga a deixar para trás tantas tradições? Olho teu mar pintado de esmeraldas e, por um momento, esqueço do prédio cinza que me aperta, da buzina dos carros e do cheiro peculiar de teu lixo diário. Imagino, quando contemplo essa imensidão que se agita além do horizonte, como era teu contorno antes dos homens construírem a cidade. Como, recifenhamente, as ondas chegavam até tuas praias para descansar ao sol. E a brisa, sempre em viajem, correndo sob as copas das árvores refrescando ímpetos, que letargiavam nas tardes de novembro.

Sem pressa, você fabricava paisagens com uma porção de verdes que não vejo mais. Ficaram apagados pela borracha impiedosa, feita de cinzentos aços e cimentos. Fala Recife, quero ouvir tua voz terrosa com gosto de cajueiro. Sou todo ouvidos de teus lamentos, porque compree...

21 de novembro de 2011

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Crônica

Dia dos Mortos

A Igreja celebra o Dia dos Fieis Defuntos há quase dez séculos, uma prática de quase dois mil anos


Saudade (1899), por Almeida Júnior

Em alguns países, como é o caso do México, é uma festa com grande atração turística. Lá, nesta data, organizam banquetes homenageando seus mortos para que estes visitem suas famílias e participem da comilança e das alegrias de todos aqueles que amaram em vida. Por aqui é diferente, as pessoas lembram-se dos queridos ausentes para sempre de modo melancólico. Alguns vão até o cemitério cumprindo uma espécie de ritual, carregando flores e soltando uma lágrima ao contemplar, cabisbaixos, o túmulo que os guarda. Outros, sem sair de casa, se deparam com o retrato que descansa na prateleira e o miram de maneira nada analítica, apenas tomando-o como um liame de ligação com o passado.

Saudade é a palavra que paira nas mentes de todos, não há como não lembrar. Por todos os lados a data é mencionada de forma a não se esquecer da ausência daquele que não ouv...

01 de novembro de 2011

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Crônica

Halloween versus Curupira

Hoje celebramos o Halloween, aliás me permitam uma correção, celebramos não, porque prefiro nosso genuíno folclore

 

O Dia das Bruxas é uma tradição anglo-saxônica praticada pelos Celtas, que habitavam a Grã-Bretanha e a Gália seiscentos anos antes da nossa Era, e que se estendeu, com a chegada dos primeiros colonos, ao Canadá e aos Estados Unidos. Acho que a transmissão de práticas e de valores espirituais de geração em geração, preservando o conjunto das crenças de um povo é válido, quando verdadeiro e legitimamente sincero.

Mas o que tem a ver tudo isto com a gente? Bruxas, cucas e abóboras transformadas em lanternas chamadas de "Jack-o'-lantern” não espelham nossos hábitos, que vão se contaminando com a chegada de estrangeirismos, tomando o lugar de tudo aquilo que faz parte da nossa cultura. Falamos t-shirt em lugar de camiseta, show em lugar de espetáculo e empregamos o anglicismo on-line em vez de dizer simplesmente que estamos disponíveis ao vivo ou em plena operação ...

31 de outubro de 2011

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Crônica

Goethe

Certa vez esse poeta alemão, que escreveu “Os sofrimentos do Jovem Werther” e “Fausto”, disse: “o maior problema de toda arte é produzir por meio de aparências a ilusão de uma realidade mais grandiosa”


Johann Wolfgang von Goethe

Achei forte essa frase. Quando este homem, que foi responsável por romances, poemas, peças de teatro, escritos autobiográficos, reflexões teóricas nas áreas de literatura, arte e ciências naturais, escreveu isto, pensava, seguramente, na pintura de Adrian Ludwig Richter, que equilibrava com maestria a figura humana com a paisagem ou na música de Bach, seus patrícios. Naquela época não existia cinema, arte conceitual, performances, grafites ou música eletrônica, expressões artísticas do mundo atual.

Mas os jardins que rodeavam sua casa em Weimar ou aqueles grandiosos do Palácio de Nymphenburg, em Munique, seguramente faziam parte do mundo em que ele vivia e é possível que Goethe (1749 – 1832) tenha refletido sobre os jardins quando falou em criar através...

28 de outubro de 2011

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Crônica

O jardim do sultão

Era deslumbrante, entretanto a paisagem que criaram para ele não podia ser julgada apenas pela estética

 

O que surgia, ao olhar dos visitantes, era a nudez poética da natureza, ordenada de modo a respeitar sua dinâmica, isto é, as forças ativas que regem a ordem natural do silvestre. Cruzar as portas que separavam o palácio da área externa era descortinar a vista do bucólico, deixando para trás qualquer maneirismo artificioso. Era livrar-se dos supérfluos para, espontaneamente, sentir a beleza verdadeira, despida de estilos e de qualquer ornamento que lhe ofuscasse sua essência.

Com uma delicadeza fantástica, a equipe que desenhou esse espaço de quinze hectares em Marrakesh, no inicio do século XVIII, permitiu que a flora marroquina encontrasse a melhor oportunidade para desenvolver um luxuriante espetáculo paisagístico. Carvalhos, oliveiras, tamareiras, argânias, acácias, tawarzas e giestas conviviam com rosas, jasmins, laranjeiras e gerânios, trazidos pelos botânicos que se av...

26 de outubro de 2011

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Crônica

O assassinato da árvore

Todo ano se preparava para florir intensamente e, metodicamente, espalhava suas pétalas na calçada. Até que um dia...


Jacarandá

Floria desde sempre nos outubros e regozijava-se por poder aliviar as frias pedras do passeio. A rotina era realizada na forma do cumprimento de um dever, fazia isto há muitos anos, antes mesmo do calçamento da rua, das guias e dessa parte mais elevada, destinada às pessoas do bairro que andavam a pé. Olhava a paisagem, desde sua copa, surpresa com tantas novidades e com essa agitação cada vez maior no quarteirão onde vivia. Eram prédios, banca de jornal, um ponto de taxi na outra esquina, enfim. A cada ano surgiam coisas impensadas tempos atrás, quando ainda era uma mudinha pequena e fora plantada ai pelo seu Miguelzinho.


Seu Miguelzinho

Seu Miguelzinho fora sapateiro, isto é, consertava sapatos. Fazia meia-sola, costurava o couro quando se separava do solado, coisas que hoje não têm importância, porque as pessoas não cultivam grandes amores pelos ...

06 de outubro de 2011

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Crônica

Omar e as tamareiras

Vivia no Vale do Draa, no sul de Marrocos. Do mesmo modo que seus ancestrais, 6.000 anos a. C.


Oásis de tamareiras em Draa

 

Seu orgulho era o de pertencer ao povo berber, ser um amazigh, isto é, um homem livre, como pode ser traduzida esta palavra que encerra um conceito muito amplo numa das línguas dos berberes. Jactava-se de ter no seu quintal as mais lindas tamareiras que alguém poderia imaginar. Não que ele as comparasse com outras crescendo em regiões distantes do Al-Magreb, já que nunca seu camelo o levaria para longe, mas os tuaregues, que ocasionalmente passavam com suas caravanas pelo vilarejo, elogiavam os frutos dessas palmeiras que, como ele próprio falava tinham “os pés no barro e a cabeça no fogo” referindo-se ao fato de crescerem graças à umidade fornecida pelo Rio Draa, suportando o sol calcinante das tardes, quando a temperatura alcançava 50° à sombra. Realmente essas tamareiras eram especiais. Há mais de trezentas variedades de Phoenix dactylifera, entretanto...

29 de setembro de 2011

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Crônica

O tempo das árvores

O passado, o presente e o futuro não significam nada para elas. Essa noção de tempo apenas exprime nossa forma de definir a duração limitada das coisas


Não sei se vocês já tiveram essa sensação de estar sempre em uma espécie de corrida contra o relógio. Nas sociedades contemporâneas o tempo é hiper valorizado: agendas eletrônicas, iPod touch, smartphones, videoconferências, internet, correios eletrônicos, hipermídia, chat e redes sociais, como Facebook, MySpace, Orkut e Twitter, mudaram o conceito que existia do antes e do depois, obrigando mulheres e homens a repensar a filosofia do tempo. Parece que a tecnologia nos abre possibilidades antes impensadas, transportando-nos de Lisboa ao Rio de Janeiro em pouco mais de nove horas, enquanto que Cabral levou, com sua frota de navios, quarenta e cinco dias para fazer o mesmo. Isto nos faz pensar que o explorador português, na época com 33 anos, deveria fazer suas refeições com bastante calma e como bom fidalgo de linhagem, principal...

28 de setembro de 2011

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