Crônica

por Raul Cânovas
No dia oito de março é lembrado o Dia Internacional de Mulher. Talvez seja por isso que inevitavelmente lembremos de algumas personagens em nossas vidas: mãe, filhas, irmãs, esposa. Ídolos femininos, que na nossa infância alimentavam a fome de aventuras como a da Mulher Maravilha, outras que ingenuamente nos fascinavam como a Branca de Neve. Mais tarde descobrimos figuras que por trás da aparente inocência escondiam uma incrível agudeza de espírito, como era o caso de Mafalda, esse fantástico personagem de historia em quadrinhos.
Nós, quando adolescentes, babávamos com Jane Fonda, Sophia Loren e Jeane Moreau, nas matinês de domingo. Eu, pessoalmente, tive algumas personalidades ilustres, como foi o caso de Gertrude Jekyll, uma paisagista inglesa, admirável, que deixou mais de 300 jardins projetados, além de ter sido a mentora da famosa revista House and Garden (Casa e Jardim) que é editada há muitos anos.
Neste mundo que foi durante séculos ou milênios, dirigid...
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08 de março de 2010
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Crônica
Sem pressa, bocejando pela última vez, soltou do cabide os verdes mais verdes e, depois de trajá-los, se engalanou com flores.

Sei que em muitos momentos de minha vida me afastei da realidade para fantasiar idéias insólitas. E quer saber de uma coisa? Vou continuar com minhas quimeras e minhas utopias que sempre inventam um mundo melhor. Quero continuar imaginando que algum dia, este planeta seja motivo de inveja de todos os alienígenas que nos espiam com seus poderosos telescópios.
Não quero que nos admirem por causa de tecnologias complicadas ou, pelo exagero de nossos luxos. Quero que eles fiquem abestalhados com a nossa felicidade, com o tamanho do sorriso largo das mulheres e dos homens que souberam conquistar a melhor das fortunas, aquela que contenta a alma de maneira verdadeira - essa que não se compra, nem se ganha por acaso.
Estou falando daquela alegria intensa que você e eu podemos vestir para sempre, se formos um pouco mais verdadeiros. Até que ponto somos realme...
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26 de fevereiro de 2010
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Um lago é uma massa d’água cercada de terra por todos lados. Só isso?

Certamente é muito mais aos olhos daquele que o contempla e descobre as sinuosidades de seu contorno e o relevo do terreno que o levou, quase que naturalmente, a acumular nessa depressão: um pouco de água, alguns peixinhos e, também, uma boa quantidade de plantas para alegrar nossa alma. Mas tem mais, quando projeto um espelho d’água, procuro metas ambiciosas que levem as pessoas a se sentirem bem ouvindo o barulho da água manando entre as pedras e percebendo, também, o perfume intenso que surge de um canteiro de lírios-do-brejo.
Esse espaço aquático pode ser simétrico, desenhando uma estrutura que combine formas regulares nos seus lados opostos (este método era usual na Idade Média e no Renascimento onde as fontes eram sempre formais e pomposas) e pode também ser irregular com margens atrevidas, onde as pedras e as plantas interagem para que o conjunto todo apresente certo bucolismo, nos deixando mais à vonta...
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19 de fevereiro de 2010
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Quando Moisés foi incumbido de construir a Arca da Aliança, teve que enfrentar uma série de vicissitudes. A ordem divina deveria ser realizada, e a primeira dificuldade a ser vencida era a de encontrar, no meio desse imenso deserto, uma árvore que lhe oferece se a madeira necessária para essa empreitada. O homem que se tornaria o libertador dos hebreus andou na frente de seu povo durante dias e dias pelo Deserto do Sinai, olhando sem parar ao seu redor e constatando a ausência de qualquer vegetação. Isso motivava ainda mais seu fervoroso desejo de encontrar um cipreste, uma oliveira, enfim algo com um tronco lenhoso para construir essa caixa que guardaria os dez mandamentos da lei de Deus.
Por fim, descendo de uma colina, em um final de tarde, surge como que desenhada por cima de um sol vermelho, uma acácia quase atarracada, cuja copa tinha multiplicado seus galhos ate atingir um espaço aéreo pleno de intrincados filigranas. Esses ramos estavam apoiados em um tronco, curto e reto...
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12 de fevereiro de 2010
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Tenha paciência, não me interrompa. Para contar esta minha história, preciso viajar no tempo, dar um imaginário salto, um pulo de ré, que me faça cair onde tudo se originou para dizer: “Era uma vez...” ou “Em tempos remotos...”.
Sim, seria um bom começo se eu não fosse uma árvore. Os humanos, a bicharada e até os seres mitológicos começam suas narrativas deste modo. Prefiro optar por uma forma mais vegetal, imaginando-me talvez um rebento a desabrochar suas próprias sensações.
Quero que sintam comigo essa insegurança que vivenciei, quando uma ventania me soprou no meio de um temporal estrondoso. Imaginem o que é voar sem asas, presa numa nuvem insensata e desvairada que, enceguecida, me libertou no meio do nada. Nada a contemplar e, depois da tempestade, nenhum barulho, apenas quietude e solidão.
Estava aí sozinha no meu minúsculo mundo que se resumia a um insignificante caroço, quando um incontrolável impulso fez com que desgarrasse a pele protetora, para poder soltar minha p...
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03 de fevereiro de 2010
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Raul Cânovas
Comecei descobrindo a beleza quando meus olhos de bebê ainda não sabiam olhar. Intuí a delicada simetria do torso de minha mãe, enquanto mamava algo que era bom e que fluía generosamente. Minha primeira aula, sobre conhecimento sensorial, ensinava-me que o bom e o belo podiam ter um significado análogo. Descobri muitos anos depois, que na Grécia Antiga acreditavam que a beleza era a consequência da felicidade dos deuses e estes, quando sorriam, demonstravam sua bondade e sua graça que era definida em uma única palavra: ”Calagathon”.
Chamava minha atenção tudo aquilo que uma criança julga de lindo, ou de brilhante bizarria: o Chevrolet, ano 1947 de meu pai, os contornos sinuosos de minha professora, do 2º ano, do ensino fundamental, que se chamava Lidia, a camisa de meu time, River Plate, as bolas de gude transparentes (tinha um montão delas), os filmes de Superman, os de terror, os cômicos e todos aqueles que me levavam para lugares incríveis, lugares que me ensinavam...
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22 de janeiro de 2010
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"Não há uma fatalidade exterior. Mas existe uma fatalidade interior. Há
sempre um minuto em que nos descobrimos vulneráveis; então, os erros
atraem-nos como uma vertigem”. Antoine de Saint-Exupéry

Pois é, nos últimos dias, diversas regiões foram castigadas por chuvas
intermitentes, que ocasionaram deslizamentos de terra com enormes danos
materiais e, o que é pior, perdas humanas. As manchetes destacavam: "Acaso
infeliz" ou "Uma série de coincidências lastimáveis" e, até, "fatalidade".
Eu, entretanto, me recuso a atribuir ao fadado destino esta catástrofe
ambiental. A civilização tem sido bastante insensível com os sinais que o
nosso querido planeta vem dando já há muito tempo, e esta bola redonda que
chamamos de terra está doente e febril. Sua temperatura é preocupante e seu
corpo mostra feridas abertas que não cicatrizam.
Abusamos dela sulcando-a de estradas que não levam em conta sua necessidade
de respirar, implantamos bairros que atrofiam seu relevo e danificamos ...
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20 de janeiro de 2010
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Há alguns tipos de comportamentos nas pessoas que, se prestarmos a devida atenção, também acharemos, ao menos de modo essencial, nas plantas.

A intolerância, por exemplo, é uma espécie de sentimento muito comum naqueles que encontram alguma dificuldade para se inserir num contexto social, isto é, pessoas inaptas para adaptarem seu modo de vida ao de outros. Esta intransigência pode levar homens e mulheres a um estado de completa solidão e auto-segregação cujo clímax pode levar a ataques de terrível violência.
Traçando uma analogia entre as pessoas e as árvores, eu gostaria de focalizar os eucaliptos. Se alguém parar para pensar acerca dessa árvore verá que existe uma semelhança entre pessoas intolerantes e os eucaliptos: essas árvores não suportam a proximidade de outras plantas. Dificilmente notar-se-á a presença de arbustos, grama ou qualquer outro tipo de vegetal perto deles.
Quando preciso criar um projeto paisagístico em uma área onde já existem...
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15 de janeiro de 2010
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