A paisagem infindável

Ela parece nunca acabar, mas as plantas do jardim, mesmo cultivadas com cuidado, tem sua vida limitada

Claro que isto não tem a mínima importância para elas, já que não possuem a consciência da finitude que atormenta o ser humano. Carl Jung (1875 — 1961) afirmou: “A vida sempre me pareceu como uma planta, que vive de sua raiz. Sua verdadeira vida é invisível, escondida nessa raiz. A parte que desponta acima do solo dura somente um único verão. Depois fenece — uma efêmera aparição”.

Não tenho a pretensão de fazer uma análise do trabalho deste psiquiatra suíço que fundou a psicologia analítica. Porém creio que fica clara a alusão que ele faz da alma, quando fala desse órgão que fixa a planta ao solo. A raiz não é vista, mas assim como o princípio espiritual que nos anima, de modo invisível e imensurável, é essencial para tornar viva aquela árvore que proporciona sombra fresca ou o arbusto cheio de flores perfumadas. Quando seu ciclo biológico chega ao fim, a planta morre, perdendo sua consciência vegetal alimentada pelo atavismo milenar que lhe deu, não apenas sua forma visível, mas também as ferramentas para integrar-se com o contorno, aceitando os frios invernais e tolerando os períodos quentes do verão.

Não sei se depois de morta a planta desaparece por completo, como preconiza a teoria materialista quando se refere aos humanos. Ou se se enquadra em alguma doutrina, mais ou menos teológica, que lhe reserve esferas etéreas, indo parar nos jardins celestiais. De outro modo também poderíamos imaginar que renascimentos sucessivos, através de processos reencarnatórios, permitissem que uma discreta e primitiva samambaia alcançasse a forma de um nobre coqueiro, depois de desfilar, ene vezes, pelos jardins do mundo.

Na mitologia grega, as Hamadríades, eram ninfas belíssimas que nasciam junto com as árvores, protegendo-as e alegrando-se quando os meses mornos traziam as chuvas junto, reverdecendo os carvalhos, as aveleiras e as figueiras. Entretanto compartilhavam a sorte dessas árvores morrendo com elas em um melancólico ritual, quando a hora chegava. Os deuses, frequentemente, puniam quem destruía qualquer árvore e enviavam os Sátiros para que amassem essas ninfas alegremente.

Como podemos ver a vida é efêmera. Acaba como tudo o que é limitado neste mundo em que vivemos. Mas há uma coisa que não pode ser negada e que é a eternidade do tempo, e nele, a concepção abstrata de um universo sem limites, onde incontáveis globos celestes giram em torno de inúmeros sois, permite, seguramente, que jardins infinitos transcendam a morte.

Autor: Raul Cânovas

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