A habilidade atávica de espelhar a paisagem

  • 29 de agosto de 2011
  • Categoria: Crônica

Sinto que o homem está recuperando o dom de retratar o que sempre percebeu na natureza


Helicônia

Desde sempre mulheres e homens reproduziram as formas, as cores, enfim, o jeito das coisas que viam nas cercanias de seu cotidiano. Pintavam animais nas paredes das cavernas, imitavam os modos que estes usavam para sobreviver e traziam para perto as plantas necessárias à sua alimentação e à cura de suas doenças. Mas o atavismo tem isto, há um período de esquecimento dos deveres e características genéticas.


Pintura rupestre

Enquanto os povos primitivos eram genuínos nas suas convicções e costumes, a partir do Renascimento houve uma necessidade de sofisticar a estética do agreste roubando-lhe a sua naturalidade. O próprio Leonardo da Vinci, referindo-se à singeleza das formas perdidas, diz: “A simplicidade é o último grau de sofisticação”. Isto foi nas últimas décadas do chamado Quattrocento, na Alta Renascença. O mundo começou a sentir a necessidade de impor o formal sobre o bucólico, acreditando que a aparência era mais importante e louvável do que o conteúdo, que deveria ser realmente percebido pelas pessoas. Nos séculos seguintes, a este século XV ao qual me refiro, a tendência de dissimular a essência da natureza foi reforçada criando jardins restritos a uma arte pretensamente decorativa. Assim foi com Andrê Le Notre, Achille Duchêne, Jean-Claude Forestier, o prussiano Xavier Kurten e muitos outros que, seguindo teorias desenvolvimentistas, achavam que o homem devia “vencer” a inculta paisagem e dar-lhe formas civilizadas.



Jardim projetado por Achille Duchene, no Chateau de Breteuil

A simetria geralmente triunfava sobre a irregularidade das formas que a comunidade florística tentava em vão mostrar na linha do horizonte e nos planos mais próximos. Isto se deve, talvez, por que os elementos simétricos são mais facilmente agrupados em conjuntos que os não simétricos e, desse modo, a percepção de formas e de cores na paisagem construída tornava-se mais simples, ou simplória.

A cultura paisagística, aos poucos, parece recuperar atitudes e tradições ancestrais que teriam ficado latentes por um longo período. Penso que todos estamos um tanto cansados dos artificialismos e começamos a valorizar a maneira xamânica de sentir emoções, valorizando tudo aquilo que foi posto, como em um cenário, para que possamos viver plenamente felizes e de um modo mais espontâneo.


Xamã

O jardim é capaz de curar todos nossos males. Resta entender como administrar as doses de bem estar que ele nos oferece.

Autor: Raul Cânovas

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