Crônica

A árvore torta

Não era bonita, pelo contrário, feiosa e desengonçada destoava das outras que, elegantes, formavam a paisagem


Cassia ferruginea‏

Nascera normalmente de uma semente sadia que eclodira, para que ela pudesse ser alguém na vida. Nos primeiros dias tudo correu às mil maravilhas: as duas primeiras folhinhas, o caule bonitinho, enfim, tudo sinalizava um futuro promissor.

Até que num final de tarde, uma capivara sem querer, pisa na mudinha que não tinha mais do que três, talvez quatro centímetros de altura. Pronto! Machucada e enlameada permaneceu vários dias entre a vida e a morte. Tentava inutilmente se reerguer todas as manhãs, olhando em direção aos raios de sol que atravessavam a floresta, mas não tinha forças suficientes, a haste fragilizada doía demais e as pequenas folhas mal conseguiam respirar.

Os dias foram se passando e as gotas de orvalho, que recebia pontualmente nas primeiras horas do dia, eram um remédio santo. Semana após semana foi arriscando meios e procurou obter energias para sobreviver. Valentemente, aos poucos, conquistou o que seria uma espécie de restabelecimento, mas as marcas ficaram e desproporcionada, com um tronco que crescia disforme, foi vivendo. Às vezes, quando alguma capivara andava por perto, ficava assustada, tremendo até as raízes, mas logo passava e continuava a sonhar com soltar flores e ser visitada por uma batuíra-do-campo, que fizesse ninho em algum de seus galhos retorcidos.

As outras árvores a olhavam de modo curioso, algumas com uma certa piedade, outras com desdém, outras...bem, outras nem sequer prestavam atenção às aflições que ela carregava.

Alguns anos se passaram e um dia, inesperadamente, surgem, naqueles galhos encurvados, um montão de cachos amarelos que, de tão amarelos, pareciam de ouro, e um bando de beija-flores festejaram com ela, que descobrira ser uma Cassia ferruginea, o acontecimento.


Floração da Cassia ferruginea

Agora nada mais importava, vista por todos como uma incapacitada por causa de sua aparência atrofiada, exibia para quem quisesse ver sua capacidade de ser árvore, de florir e de ser notada pelos novos amigos que voavam ao redor.

Autor: Raul Cânovas

17 de fevereiro de 2011

3 comentários

Carregando...
  • Cacia comentou dia 28 de fevereiro:

    Linda historia! Me sentia assim, depois que tive meus filhos, minha beleza aflorou e hoje me olham com admiração. A capacidade de gerar vida fez de mim, uma bela mulher.

  • MATILDE M M COSTA comentou dia 11 de março:

    Lindo!!!
    Queria saber me expressar assim.
    Um abraço, Matilde

  • MATILDE M M COSTA comentou dia 11 de março:

    Lindo!!!
    Queria saber me expressar assim.
    Um abraço, Matilde