
Quando Moisés foi incumbido de construir a Arca da Aliança, teve que enfrentar uma série de vicissitudes. A ordem divina deveria ser realizada, e a primeira dificuldade a ser vencida era a de encontrar, no meio desse imenso deserto, uma árvore que lhe oferece se a madeira necessária para essa empreitada. O homem que se tornaria o libertador dos hebreus andou na frente de seu povo durante dias e dias pelo Deserto do Sinai, olhando sem parar ao seu redor e constatando a ausência de qualquer vegetação. Isso motivava ainda mais seu fervoroso desejo de encontrar um cipreste, uma oliveira, enfim algo com um tronco lenhoso para construir essa caixa que guardaria os dez mandamentos da lei de Deus.
Por fim, descendo de uma colina, em um final de tarde, surge como que desenhada por cima de um sol vermelho, uma acácia quase atarracada, cuja copa tinha multiplicado seus galhos ate atingir um espaço aéreo pleno de intrincados filigranas. Esses ramos estavam apoiados em um tronco, curto e retorcido, que indicava ciclos intermináveis de seca, sol e ventos implacáveis. No centro dessa paisagem desoladora surgia como se estivesse esperando por Moisés, desde o momento da Criação.
Ele, repentinamente, transforma o rosto marcado pelo cansaço em uma expressão de raro regozijo. Tinha, finalmente, encontrado a possível solução para o primeiro obstáculo. De modo inusitado inicia com a árvore este diálogo (naqueles tempos, os profetas tinham o dom que lhes possibilitava falar com certos indivíduos, do Reino Vegetal):
- Como devo chamá-la?
- Sou uma Acacia raddiana e faço parte da Família das Leguminosas.
- Tenho uma missão celestial a realizar e acredito que pode me ajudar. Caso me socorra posso lhe conceder uma florada eterna, a estatura colossal dos carvalhos. Mais que isso, prometo-lhe imortalidade!
- Prefiro a rotina das periódicas floradas. Prefiro continuar a possuir minhas raízes, que penetram até setenta metros este solo, do que uma aparente soberba. Prefiro o dia, a noite, o risco da seca e da tempestade. Na eternidade que me promete, o tempo não conta e é este que, perpetuamente, irá me recriar. O tempo é o presente que persiste e que nutre a divindade que guardo em meu cerne. Nós, acácias, não pensamos na morte.
- Devo entender sua resposta como uma recusa ao meu pedido?
- Precisa entender que nada quero em troca. Já esperava por este momento. Passei décadas e décadas endurecendo e adensando minha madeira até torná-la imputrescível e apropriada para o encargo.
- Posso contar com você?
- Pode. Também me chame de Shittah, é mais coloquial.
-Nesse caso prefiro que me trate de Moshé.
Assim foi selada a parceria entre o mais notável legislador hebreu e a árvore que cedeu a madeira para construir a Arca da Aliança. Esta, nunca foi encontrada. “Primas”, daquela acácia, foram tomando diferentes formas e, hoje, colonizam os cinco continentes.








evandro comentou dia 12 de fevereiro:
Que lindo este post. Poesia pura. Mto bom.
Evandro
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Lidiane comentou dia 12 de fevereiro:
ADOREI O POST!
Cibele comentou dia 15 de fevereiro:
adorei o blog não conhecia...